Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Tempo e amor — Autores diversos — F. C. Xavier/Clóvis Tavares


3


Isto é um sonho…

(1ª Mensagem de RAMIRO VIANA) n

1 Querida Adete n e querida Célia. n

2 Isto é um sonho, porque a minha consolação supera o sentimento de distância que me oprimia e vejo-me reintegrado em mim mesmo para as notícias que prometi.

3 Adete querida, aqui está o nosso compromisso realizado. Não afiancei determinadamente que voltaria, mas disse a você, querida companheira, que se Jesus me permitisse estaria com as minhas informações na primeira oportunidade.

4 Tanto se fala a respeito de morte, qual se a morte não passasse de ilusão, mas o morrer é outra coisa.

5 Não me foi fácil desistir, entregar-me à retirada…

6 O pensamento fixo em nossas obrigações me prendia ao corpo, que já não atendia mais às exigências de uma vida tolerável e equilibrada…

7 Mas, a vida, para mim, era você que ficava com os nossos filhos e com os nossos encargos, era você que resumia toda a felicidade que eu poderia haver algum dia desejado…

8 Lia o meu estado orgânico em seus olhos, embora as suas palavras me quisessem afirmar o contrário. No íntimo, confesso que rogava a Jesus, em preces, para demorar-me mais tempo.

9 O nosso “Allan Kardec” n me segurava em muitos planos de serviço, a “Casa da Sopa” fraterna e o nosso grupo de Caratinga n eram laços de luz que me retinham ao seu lado, pois não compreendia pudéssemos nós dois aprender a existir e trabalhar, um sem o outro…

10 Pensava em nossa Célia, em nosso Walter e em nosso Ciro, n querendo encontrar em mim novas justificativas para livrar-me da desencarnação, porquanto os netos igualmente me tomavam os sentimentos, mas o desgaste do corpo alcançou uma taxa que não me permitia mais qualquer atitude de sonegação espiritual, pois assim considerei minha atitude de indecisão, reconhecendo o dever de partir e fortalecendo em mim o inútil propósito de permanecer…

11 O momento inesperado, conquanto inevitável, chegou, e não pude mais fitar o seu rosto ou tatear as suas mãos.

12 Uma névoa branquicenta me envolveu de todo e, com assombro, vi a fisionomia de Paulo Sérgio crescido n a sorrir e com ele o nosso Cavalcanti, o genro amigo que sempre acolhemos por filho no coração…

13 Depois, a névoa se desfez e notei a presença de vários amigos.

14 O Dr. Dias da Cruz, n que conhecia através de retratos, me ofereceu generosamente a mão, informando-me que eu atravessara a grande barreira…

15 Estava acanhado e sob a força de grande emoção…

16 Refleti no sono a que tantos amigos nossos se referiam em suas notícias, mas consultando o meu próprio íntimo, notei a presença do cansaço em meu corpo, mas nenhuma inclinação para dormir. Abraçando-me, Paulo Sérgio me esclareceu que o repouso viria depois, de vez que os meus dias longos de doença me haviam preparado uma certa consciência da própria liberação da experiência física.

17 O Alcebíades Neto n me enlaçou e mostrou-me o corpo que me servira tanto…

18 Fitei aquela estranha escultura de mim próprio, sentindo um reconhecimento profundo por aquele instrumento, que me permitira tanta felicidade junto de seu coração de esposa e mãe, irmã e companheira.

19 Havia um silêncio em torno de mim que me incomodava.

20 Ali estavam diversos amigos que saudei sem muita movimentação, porque a fadiga e o imprevisto da separação me faziam chorar.

21 Demorei-me no “Allan Kardec” junto de minhas lembranças derradeiras, meditando…

22 Recordei, querida Adete, toda a nossa vida, pormenor a pormenor… As lutas do princípio, os meninos pequenos, a serraria e o ideal… Depois as nossas tarefas, aqui e ali…

23 Pádua n apareceu em minha imaginação e rememorei todos os serviços a que nos entregamos…

24 Escutei você, tentando conformação e testemunhos de fé…

25 Valente esposa que tudo me dera, você me ensinava também como se deve facear a morte com a fortaleza da confiança em Deus!…

26 Conquanto liberado do corpo que retiravam para o retorno à natureza sentia-me ligado ainda a você, para pensar e mentalizar as imagens que me povoavam a cabeça…

27 Escutei as preces e os cânticos… Recordei que a semana espírita em Campos estava terminando… e as emoções me subjugavam os raciocínios, porque naquele instante de adeus, não sabia se refletia ou se chorava, e por que modo se mesclavam ali dentro de mim o cérebro e o coração…

28 O irmão Dias da Cruz e o nosso amigo Joseph Gleber n me avisaram que me preparasse para a remoção, no entanto, ao anoitecer, quando no salão do “Allan Kardec” me organizavam a viagem de regresso ao Grande Lar, chegavam amigos outros…

29 Era uma legião de afetos que nunca poderia esquecer. O irmão Claudino Dias e irmãos outros que vinham de Barra do Piraí; o Oscar Marins vinha de Barra Mansa; o Lulu Machado n e o Codro Palissy n estavam surgindo; a irmã Malvina Navega, n com a outra Malvina, a Malvina Porto, n apareceram para saudar-me. Os amigos Nhonhô Coutinho, n o Valado Rosas, n o irmão Fritz n e enfermeiros espirituais vieram de Caratinga ao nosso encontro. Os amigos João Viana, n o Dr. Epaminondas, n o Dr. Alfeu Gomes, n o irmão Inocêncio, n o Severino Rosa, n a irmã Salvadora Assis, n todos em serviço em Campos, ali estavam conosco. Os irmãos César Goncalves n e Jônatas Botelho n nos falavam acerca de Niterói; o Leopoldo n e a irmã dedicada de sempre Dona Marília, n davam notícias de Nova Iguaçu… O irmão José do Espírito Santo, n e os irmãos Henrique Andrade, n o João Pinto de Souza; n a irmã Ruth Sant’Anna, n o amigo Lauro Pastor n e muitos outros me traziam lembranças do Rio.

30 Então, querida Adete, entre você e meus filhos e aquela assembleia de cristãos e companheiros espíritas que tanto estimamos, senti que a bondade de Jesus me concedia força e consolo para seguir adiante.

31 Amigos do antigo Galpão, que precedeu a obra do amigo Ferreira Machado, n companheiros que nós ambos visitávamos perto do cemitério e que haviam voltado ao Plano Espiritual, sob as imposições da tuberculose, me trouxeram flores, e outros ainda dos hospitais de socorro espiritual que vimos nascer me entregavam orações e votos de paz.

32 Então, abraçado ao Paulo Sérgio, ao nosso Cavalcanti e ao nosso Alcebíades, n chorei de alegria, de uma profunda alegria, que não sei se era uma profunda tristeza, por não ser o que acreditavam que eu seja e, somente aí, encontrei o sono dos desencarnados, do qual despertei muito depois, a fim de pedir o regresso à sua companhia, para continuarmos em nossas tarefas com os irmãos que nos constituem abençoada família.

33 Por hoje não posso escrever mais. Em nossa irmã Rosita, n agradeço a todos os corações devotados à nossa continuidade do prato fraterno aos necessitados.

34 Com o nosso Albano n e com o nosso Peixotinho, n me despeço por agora…

35 Deus abençoe a você, a nossa Célia e a todos os nossos do coração. Muito reconfortado e muito saudoso, beija-lhe as mãos o companheiro e esposo, irmão e devedor, sempre seu, hoje como ontem e agora como sempre. Grande abraço do seu


.Ramiro Viana


ANOTAÇÕES


1 — Ramiro Martin Viana — Nascido a 22 de outubro de 1903 em Campos, RJ, desencarnou no dia 26 de julho de 1981, às 5 horas da manhã em sua residência, na mesma cidade. A mensagem foi psicografada na noite de 19 de setembro de 1981.

2 — Adete — Esposa de Ramiro Martin Viana.

3 — Célia — Filha do casal.

4 — Grupo Espírita Allan Kardec, do qual Ramiro foi diretor durante longos anos.

5— Grupo Espírita Dr. Dias da Cruz, de Caratinga, MG, onde Ramiro fez inúmeras palestras, acompanhado de sua esposa.

6 — Walter e Ciro — Filhos de Ramiro-Adete.

7 — Paulo Sérgio — Filho do casal, nascido a 13 de janeiro de 1943 e desencarnado a 19 de junho de 1960, em Campos, RJ.

8 — Dr. Dias da Cruz — Dr. Francisco de Menezes Dias da Cruz, grande médico, denodado batalhador no campo da Doutrina Espírita, onde chegou a ser Presidente da Federação Espírita Brasileira. Desencarnou em 1937.

9 — Alcebíades Neto — Nosso confrade e companheiro de Ramiro, desencarnado a 3 de abril de 1974, em Campos, RJ. Foi diretor do G. E. Allan Kardec.

10 — Pádua — Santo Antônio de Pádua, cidade do Norte Fluminense, onde Ramiro viveu e trabalhou no campo doutrinário, antes de retornar a Campos.

11 — Joseph Gleber — Entidade espiritual participante de serviços espirituais em Caratinga.

12 — Lulu Machado ( Luís Machado), companheiro de Doutrina, que exerceu seu ministério de abnegação e caridade, verdadeiramente apostolar, em São Fidélis, RJ.

13 — Codro Palissy — Saudoso escritor espírita, autor de Eleonara e As Vítimas do Preconceito, excelentes romances doutrinários, editados pela FEB.

14 — Malvina Navega — Trabalhadora da Doutrina em Campos e Santo Antônio de Pádua, patrona do Grupo Espírita Malvina Navega.

15 — Malvina Porto — Servidora de Jesus na Seara Espírita.

16 — Nhonhô Coutinho — Confrade e companheiro de Ramiro, diretor do Grupo Espírita Dr. Dias da Cruz, em Caratinga, onde viveu e desericarnou.

17 — Valado Rosas — Pseudônimo do grande poeta português Lázaro Fernandes Leite do Val. Nasceu em Portugal (1871). Jovem ainda veio para o Brasil e aqui trabalhou no campo doutrinário. Desencarnou em Caratinga a 19 de janeiro de 1930. O Parnaso de Além-Túmulo insere magníficas poesias suas.

18 — Fritz — Conhecido Benfeitor Espiritual, colaborador em serviços assistenciais.

19 — João Viana — Saudoso advogado e confrade, devotado militante espírita; patrono espiritual do “Abrigo Dr. João Viana”.

20 — Dr. Epaminondas — Dedicado médico, que trabalhou em diversos locais do território fluminense.

21 — Dr. Alfeu Gomes — Médico e Professor, trabalhou longos anos em Campos, em suas profissões e no campo doutrinário. Patrono da Comunhão Espírita Dr. Alfeu Gomes, de Campos, RJ.

22 — Inocêncio — Nosso confrade, valoroso obreiro da Doutrina em Campos. Nascido em Portugal, viveu quase toda a sua existência no Brasil. Grande benfeitor e dedicado diretor da Escola Jesus Cristo. Desencarnou no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Campos, na madrugada de 13 de março de 1968.

23 — Severino Rosa — Médico e patrono espiritual do Grupo Espírita Severino Rosa, Campos.

24 — Salvadora Assis — Distinta professora e devotada trabalhadora da Doutrina na Escola Jesus Cristo. Benfeitora da infância e da pobreza, seu nome está lembrado na “Creche Salvadora Assis”, da Escola Jesus Cristo.

25 — César Gonçalves — Valoroso trabalhador da Seara Espírita, com grandes atividades no Rio e Niterói. Excursionou pelo interior do Brasil, realizando conferências doutrinárias.

26 — Jônatas Botelho — Nascido e desencarnado em Niterói (1878-1948) foi presidente da Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro, membro da Academia Fluminense de Letras, jornalista e escritor. Desenvolveu brilhantes atividades no setor de difusão da Doutrina.

27/28 — Leopoldo Machado e D. Marília Barbosa Machado — Valorosos e inesquecíveis companheiros da Doutrina. Fundadores do “Lar de Jesus” em Nova Iguaçu, educandário e abrigo de menores carentes. Excursionaram por todo o Brasil, a serviço da Doutrina.

29 — José do Espírito Santo — Valoroso trabalhador da Doutrina Espírita na região do Grande Rio. Seu nome é lembrado carinhosamente nos ambientes espíritas em que trabalhou e é citado com muito amor em obras mediúnicas psicografadas por Francisco C. Xavier e Waldo Vieira.

30 — Henrique Andrade — Devotado obreiro da Doutrina, levou sua palavra valorosa e culta a várias regiões do Brasil. Foi o fundador do jornal “Mundo Espírita”, de Curitiba, PR.

31 — João Pinto de Souza — Um dos pioneiros, ao lado de Cairbar Schutel, da difusão da Doutrina Espírita através de programas radiofônicos. Pernambucano de Palmares (1891), desencarnou no Rio de Janeiro (31-07-1943). Foi um dos grandes trabalhadores da Doutrina.

32 — Ruth Sant’Anna — (Rio de Janeiro, RJ, 1895-1980). Devotada obreira da Doutrina, através da palavra evangelizadora e da assistência aos sofredores, de modo especial às criancinhas desamparadas.

33 — Lauro Pastor — Devotado obreiro da Doutrina, pela palavra, pela ação e pelo exemplo. Foi professor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Sincero e afetuoso amigo de Francisco Cândido Xavier.

34 — Ferreira Machado — Hospital Ferreira Machado, onde além da assistência aos enfermos, funcionava a Escola de Evangelho Ana Rosa Trindade, fundada e dirigida por Ramiro.

35 — Alcebíades Neto — Sincero e dedicado obreiro da Doutrina Espírita. Um dos diretores do Grupo Espírita Allan Kardec, de Campos. Trabalhador da Seara, inteligente e humilde, deixou-nos um grande exemplo de vivência do Evangelho.

36 — Rosita — Dedicada irmã de Ramiro, cooperadora da Casa da Sopa, do Grupo Espírita Allan Kardec.

37 — Albano — Dr. Albano Seixas Filho, médico e confrade, antigo diretor do Grupo Espírita Aracy, em Campos, RJ.

38 — Peixotinho — Francisco Peixoto Lins (Peixotinho), conhecidíssimo médium de efeitos físicos. Cearense de nascimento, foi dedicado obreiro da Doutrina em Macaé e Campos. Desencarnou nesta última cidade a 16 de junho de 1966.


.Clovis Tavares


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir