Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Sexo e destino — André Luiz — F. C. Xavier / Waldo Vieira — 2ª Parte


Capítulo 1

(Sumário)

1 Quase cinco da manhã, quando nos vimos na intimidade dos Nogueiras.

A casa jazia quieta. Peças mudas, silêncio.

Agitava-se, porém, Dona Márcia, sob a colcha leve, cansada de vigília. Varara a noite em aflição.  Na penumbra do quarto, apoiava o cotovelo no travesseiro e a cabeça na mão, de pensamento longe. Tinha os olhos empapuçados de chorar. A filha adotiva não voltara. Ansiosa, esperava que o dia se levantasse… Telefonaria para a residência dos Torres, para saber do regresso de Marina. Se preciso, chamaria Teresópolis. Queria comunicar-se com alguém, desentranhar-se. Sentia medo, o coração palpitava catástrofe.

Consultei-a mentalmente, procurando notícias de Cláudio.

Alcancei-lhe a resposta inarticulada. Supondo reconsiderar os sucessos da noite, passou a lembrar-lhe o retorno, horas antes, totalmente embriagado. Chegara tateando paredes esbarrando com os móveis. Inferira que ele tentara afogar o remorso em copázios de uísque. Ouvira-lhe os vômitos, escutara-lhe as descomposturas à porta, mas trancara-se, precavida. Carraspana e ressaca rematando a criminosa aventura… Não desejava cenas.

Súbito, quebrou a linha de reflexões em que penetrara. Repeliu-me a influência, convicta de estar reafirmando para si mesma que atingira o ponto final da tolerância… Nada mais com Cláudio. Convertera a mágoa em nojo. Aspirava a nova atitude, suspirava por desquitar-se, fugir…

Deixamo-la engolfada nas alegações negativas, buscando o aposento dos fundos. Nogueira ai se despejara em cama de solteiro, completamente equipado, sem alijar nem mesmo o paletó. Estirava-se de lado, a expelir saliva grossa pelo canto da boca, ressonando, tranquilo, e, com ele, o vampirizador, relaxado sob os efeitos do álcool. Ambos largados, embrutecidos.

Demorava-me na inspeção, quando a campainha do telefone retiniu.

Com certeza, irmão Félix obtivera meios de abrir-me alguma porta, a fim de que me fosse possível atuar, favoravelmente. Imprescindível atacar o problema, advogar a proteção de que fora incumbido.

Tornei à sala.


2 Dona Márcia, em “baby-doll”, punha o fone ao ouvido, carregada de escuros pressentimentos. A voz de um homem simples repontou no auscultador:

— Estou falando com o “seu” Cláudio Nogueira?

— Na casa dele.

— Ele está?

Dona Márcia reconhecia de todo impraticável o ensaio de qualquer conversação com o esposo, escornado àquela hora, e respondeu, positiva:

— Não, não está.

— Quero falar com ele ou com a madama. A interlocutora, experiente demais em trotes e adestrada no jogo das conveniências sociais, pressupôs estar em contacto com algum novo despropósito do marido, e indagou, prudente:

— Com quem estou falando?

— Com Zeca, lixeiro. Estou em Copabana, preciso dar notícia de um desastre…

— Que desastre?

— A senhora é a dona da casa?

— Não sou, mas trabalho aqui. Sou empregada…

Dona Márcia receava cair em complicações, na hipótese de transpor as raias do anonimato, e, à vista disso, antes que o desconhecido revidasse, acrescentou:

— Os patrões estão ausentes, mas posso dar o recado.

— Olhe — gaguejou o informante —, o caso é com Dona Marita, a moça da loja.

— Que há? diga, por favor, que há?

A senhora Nogueira sentiu-se traspassada de angústia, enquanto, de minha parte, concluía que Félix angariara o concurso de um lixeiro prestimoso para transmitir a notícia, preparando o terreno que me cabia encaminhar ao plantio da compaixão.

— Diga aos patrões que ela foi atropelada…

— Onde? como? quando?

— Bem, eu não sei como foi, mas vi que era ela…

— Agora?

— Há uma boa meia hora, aqui perto, na Avenida Atlântica…

— Está aí?

— Não está, a ambulância já levou.

— Mas o senhor tem certeza?

— Tenho toda a certeza… Ela estava sem bolsa, ninguém a reconheceu… Mas eu conheço Dona Marita, foi sempre amiga de minha mulher desde que veio para cá. Minha mulher é empregada no edifício da loja… Coitada de Dona Marita, moça tão boa! Ela é que conseguiu lugar para minhas duas filhas na escola!…

— Mas, escute — Dona Márcia cortou as referências, terrivelmente chocada —, como está ela?

— Dizem que morreu…

Embora calejada contra as emoções, a esposa de Cláudio abandonou o fone e afastou-se, pálida.

Arremessou-se à cama e agarrou a própria cabeça, entre as mãos, julgando enlouquecer…

— Morta! Marita morta! — refletiu, atribulada.

Recordou o ultraje que a pobre menina experimentara naquela noite que o dia nascente esfumara, qual se expulsasse um pesadelo, e a mente divagou… Aracélia, a servidora e amiga… Vinte anos antes.. O suicídio!… E agora a filha, na mesma tragédia, com o mesmo homem… Decerto, Marita, envergonhada, procurara a morte. Inexperiente, sucumbira. Ajustava argumentos por dedução. Crescina falara-lhe de encontro com Gilberto, no entanto, apanhara Cláudio em desconcerto flagrante. Tudo indicava a intromissão dele em algum arranjo dos jovens, para infligir à filha o imperdoável insulto… Indubitavelmente, a desventurada menina preferira morrer…


3 Nesse entretempo, intervim. Assimilei-lhe os pensamentos de simpatia e fi-la meditar nas tribulações de Marita, dentro da noite, esforçando-me por incliná-la à compaixão… Largasse o marasmo, sacudisse Cláudio, chamasse, implorasse… Se o marido não estivesse em condições de compreendê-la, que ela própria saísse à rua… Procurasse a moça… Telefonasse à Polícia, refletisse nela, como sendo sua própria filha… Corresse ao Pronto Socorro da Zona Sul, inquirisse funcionários, ouvisse médicos, visitasse a morgue.. Alguém auxiliaria, encontraria a criatura que a Providência Divina lhe pusera nas mãos… Quem saberia? Talvez que ela ainda estivesse nas raias do fim a esperar-lhe as mãos piedosas, como quem aguarda uma bênção!…

Dona Márcia ouviu mentalmente. Ao recolher-me as sugestões, imaginou a filha estendida no necrotério, comoveu-se e chorou…

Entretanto, a senhora Nogueira não era pessoa que renunciasse a peso e medida, em matéria de questões sociais e domésticas. Reagiu para logo, crendo-se piegas. Não queria afundar-se em sentimentalismo, confessou, na suposição de que falava consigo mesma. Era necessário sopesar prós e contras.

Do pesar ao cálculo, mediaram apenas alguns instantes.

Efetivamente, lastimava Marita e enojava-se de Cláudio, monologou, todavia, era mãe. Nada de alhear-se ao destino da filha. Marina aprumava-se. Os Torres eram ricos, talvez riquíssimos. Ambas as moças disputavam Gilberto. Afinal, a morte de Marita surgia por solução. Assim que pudesse chamar o esposo a brios, combinariam plano certo Levantariam a hipótese de acidente, inventariam versão plausível. Ela própria afirmaria que concedera à jovem permissão para pernoitar em casa de parente enfermo, recomendando-lhe o regresso tão cedo quanto fosse possível para a obtenção de notícia urgente.

Indispensável maquinar situações, engenhar detalhes. Os chefes da loja, amigos de Marita, se interessariam pelos fatos. A imprensa tomaria atenção. Cabia-lhe preparar-se a fim de facear repórteres e fotógrafos. Pensou no modelo azul com que se apurava na representação a funerais e vasculhou a memória para saber onde colocara, distraída, os óculos escuros.

Quando a manhã se adiantasse, despertaria o esposo, com vista ao ajuste. Conversariam seriamente. Até lá, fantasiaria a história convinhável ao público, em função da felicidade e do futuro de Merina. Se a outra estava morta, para que preocupar-se? Importava-lhe agora a filha, somente a filha… E, depois que a filha se casasse… nada de Cláudio. Não se sentia inútil, mas andava cansada de dar no batente, suportando inibições e contrariedades por um esposo que, desde muito, se lhe fizera detestável. Não se escravizaria. Recebera um convite de Selma, companheira de infância, para negócio que considerava lucrativo, na Lapa. Na frente um café, acompanhado de aperitivos e guloseimas e, nos fundos, quartos de aluguel…


4 Reconhecendo que Dona Márcia se imobilizava, mentalmente, em digressões esconsas, tornamos à presença de Félix para a obtenção de roteiros precisos.

Acomodada num leito de emergência, Marita figurava-se em coma.

Félix, assistido agora por dois médicos desencarnados, em serviço na grande instituição socorrista, se mantinha sereno, apesar da tristeza que lhe velava o semblante.

Acolheu-me, paciente. Ouviu-me.

De posse das informações de que me fizera mensageiro, recomendou-me esperá-lo alguns minutos. Sairíamos, à cata de reforço.

Enquanto isso, auscultei a jovem acidentada, que jazia inconsciente, em terrível depressão. Escassas reações dos centros nervosos, anoxemia, sensíveis alterações dos capilares, lesões no peritônio. Os esfíncteres descontrolados davam passagem a líquidos e excrementos que empastavam a veste.

Félix mobilizou as providências cabíveis e rogou aos colegas desencarnados nos substituíssem por instantes.

Demandamos a residência de Cláudio.


5 A caminho, notei que o benfeitor, em silêncio, adensava a própria forma, transfigurando-se na apresentação. A ocorrência, que eu conseguia apenas depois de paciente elaboração mental, obtinha-a Félix com esforço ligeiro. Rápidos momentos e imprimiu ao corpo espiritual novo ritmo vibratório.

O instrutor assumira as características de um homem vulgar.


6 Por que a transformação?

— André — respondeu, assimilando-me os pensamentos —, ninguém pode fazer tudo senão Deus. Você é também médico e não ignora que, em certas ocasiões, é imperioso pedir remédio ao pilriteiro. Na Terra, às vezes, para socorrer um santo é necessário dosar um veneno. Marita, em súbita decadência física, precisa agora dos préstimos de alguém que a ame infinitamente. Chegou a hora de esmolar para ela o socorro dos que a feriram amando…

A voz do amigo carregava-se de pesar; contudo, não nos era possível comentar a filosofia que enunciava, de vez que atingíramos o prédio em que se dependurava o ninho dos Nogueiras, banhado pelo sol recém-vindo.

Subimos.

Qual aconteceu comigo na véspera, o instrutor bateu à porta semicerrada.

Após reiterados chamamentos, Moreira veio atender, como qualquer ser humano estremunhado. Não me via, porquanto de tempo não dispusera eu para a metamorfose necessária, mas, renteando com Félix, desenrolou comprida fieira de insultos, que o benfeitor recebeu com humildade. Quando terminou, algo desenxabido pela ausência de qualquer resposta que lhe alimentasse a ira gratuita, Félix comunicou-lhe o acidente. Sabia-o interessado na proteção da moça, rogava-lhe amparo. Diante da incredulidade com que era acolhido, solicitou-lhe fizesse a gentileza de verificar se a menina amanhecera no lar.

 Moreira correu ao interior e voltou, coçando a cabeça. Sim, atenderia ao apelo, mas não despertaria o dono da casa enquanto não averiguasse a realidade.

Carrancudo, ladeou o instrutor, sem dizer palavra, do Flamengo ao estabelecimento de socorro público, mas, topando a moça, entregue à miserabilidade orgânica, o peito se lhe explodiu numa torrente de lágrimas, semelhante a rocha que se partisse de repente para revelar uma fonte…

Rodou sobre os calcanhares e arrancou-se qual flecha.


7 Félix, confortado, explicou que, pelo visto, Cláudio não tardaria, informando-me de que, segundo lhe era lícito ajuizar, Marita conseguira pequena moratória. Mais alguns dias no corpo amarfanhado, quinze a vinte no máximo… Tempo de meditação, preparo valioso ante a vida espiritual… O cérebro seria protegido, mas não recuperado. Desorganizara-se. Dentro de algumas horas, a moça poderia pensar e ouvir com regularidade, reaver alguns recursos da sensibilidade e enxergar imprecisamente; entretanto, não mais contaria com o centro da fala. Naquele estado, aditou ele, permaneceria facilmente, na Esfera física, por muito tempo ainda, mas o peritônio sofrera contusões de efeitos irreversíveis. Não valeriam antibióticos, por maior fosse a carga. Ainda assim, sentia-se reconhecido aos supervisores espirituais, que haviam advogado a pequena dilação. As horas finais ser-lhe-iam preciosas. Desfrutaria o ensejo de aprontar-se para a renovação, enquanto que Cláudio, Márcia e Marina talvez reconsiderassem caminhos.


8 Arrecadava-lhe o otimismo, comovidamente. Transcorridos pouco mais de cinquenta minutos, Cláudio, seguido por médico que se lhe afeiçoara à família e que conhecia Marita, desde muito, deu entrada no posto de assistência. Márcia, sob a pressão de Moreira e interrogada pelo marido, liberara as informações de que dispunha.

O facultativo recém-chegado deixou o bancário no vestíbulo para efetuar a inspeção, identificando a menina sem maiores dificuldades. Feito isso, tomou providências, junto aos colegas, para que a jovem fosse imediatamente transferida para o Hospital Central dos Acidentados, com vistas ao tratamento urgente e minucioso. E depois de ligações telefônicas, no preparo da instalação necessária, determinou as medidas inadiáveis. Que limpassem Marita, que se lhe purificasse o ambiente, que mesmo acreditada em coma fosse tratada com o máximo apreço.

Seja dito, no entanto, que não se registrara, ali, qualquer desleixo. As condições precárias da moça exigiam repouso, quietação. Justo observá-la, antes de qualquer alteração suscetível de agravar-lhe os constrangimentos.

Com efeito, iniciada a laboriosa remoção que Cláudio e Moreira seguiram, de longe, a cabeça, pendida para trás, impeliu o sangue a movimento retrógrado e surgiu a possibilidade de asfixia. Félix controlou, quanto pôde, as mãos dos condutores, e, tão logo a vimos ajustada em novo leito, vali-me do socorro magnético de profundidade que as circunstâncias exigiam. Sentei-me, de maneira a guardar aquele corpo abatido em meus braços, envolvendo-o no meu próprio hálito, numa operação que nos permitiremos nomear aqui por adição de força, cujos resultados se destacam surpreendentes, quando a criatura retida no envoltório físico se mostra nos últimos lances da resistência.

Nesse ínterim, Félix aconselhou que eu me adensasse na apresentação, a fim de que Moreira me enxergasse os exercícios. Conservava a esperança de vê-lo oferecer-se para manter a respiração da moça em boa ordem.


9 Orei, empenhando-me na consecução do objetivo, e quando Nogueira e o acompanhante vararam a porta do quarto em que a administração nos localizara, o vampirizador deitou-me olhar espantadiço.

Cambalearam sensibilizados, aflitos…

Incoercível emoção me tomou a alma.

Cláudio abeirou-se, trêmulo, da filha e rompeu em soluços.

Tanto quanto me era dado perceber, aquela hora significava para ele doloroso balanço de consciência.

Instintivamente, tornou à infância e à mocidade… Lembrou as leviandades primeiras. Irreflexões do passado corporificaram-se-lhe na memória. Enfileirou na imaginação os desvarios sexuais das trilhas percorridas. Cada jovem que iludira, cada mulher de cujas fraquezas abusara repontavam-lhe na tela mental, como que a lhe perguntarem pela filha que a vida lhe trouxera…

Aquele homem que me inspirava sentimentos contraditórios e de quem teria desejado distanciar-me, tocado de aversão, me insuflava agora um enternecimento que somente as lágrimas exprimiam!…

Perante a enfermeira impressionada, Cláudio ajoelhou-se e, com ele, pôs-se Moreira genuflexo… Em choro convulso, o pai alisou aqueles cabelos despenteados, contemplou a fisionomia de cera que a morte parecia estar modelando, mirou a face e os lábios intumescidos por equimoses, aspirou o ar deteriorado que se lhe exalava dos pulmões e, mergulhando a cabeça nos lençóis, gritou, vencido:

— Ah! minha filha!… minha filha!…

Quase no mesmo instante, a fronte de Moreira vergou, como se esmagada de sofrimento.. Ambos jaziam; ali, debruçados, rente aos meus joelhos, com a mesma rendição dentro da qual Marita se me conchegava ao regaço.

Reconheci que a Previdência Divina, em seus desígnios, não me aproximava unicamente da vítima. Os verdugos também pediam amor. Segurando a moça inerme, à altura do peito, afaguei-os com a destra, sustentando-me em prece… E a prece clareava-me o pensamento, corrigindo-me a visão!… Sim, tentando consolar aqueles dois homens que o remorso dobrava em tormento indizível, refleti nos meus próprios erros e compreendi os propósitos da vida!… Não!… Eles não eram os estupradores, os obsessores, os inimigos, os carrascos que eu detestara na véspera!… Eles eram meus amigos, meus irmãos!…


.André Luiz



(Página recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier.)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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