Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Renúncia — Emmanuel — 2ª Parte


6


Solidão amarga

1 Susana Davenport ainda viveu pouco mais de dois anos, após a morte de Robbie. A filha de Madalena passou todo esse tempo em largos sacrifícios domésticos, exemplificando o amor mais puro. A genitora de Beatriz teve agonia prolongada, recuperando a razão nas derradeiras horas. Olhos fixos na filha, tomou-lhe a mão e colocou-a nas mãos de Alcíone, dando a entender que a filhinha, em tempo algum, deveria esquecer de tomar a irmã como um símbolo.

Alcíone descansava agora de uma luta imensa, mas, afeita ao trabalho desde os mais tenros anos, chegava a estranhar o repouso.


2 O próximo casamento de Beatriz, com os numerosos trabalhos consequentes, foi por ela encarado como um alívio à solidão que começava a experimentar. Todas as horas do dia, em carinhosa dedicação, eram consagradas ao bordado e à costura, surpreendendo a irmã pelo gosto artístico e habilidade, em cada detalhe do serviço. Beatriz não conseguia eximir-se ao peso das recordações dolorosas, mas o consórcio com o homem amado revigorava-lhe as esperanças. O palacete da Cité, W sempre envolvido num manto de saudades, dava a impressão de jardim abandonado que começasse a reflorir. Os servos evitavam referências à morte dos antigos senhores, para que os rebentos de alegria nova não fossem arrancados. Se acaso via a irmã entristecida, Alcíone fazia questão de tanger as teclas de assunto confortador, para que a moça não se entregasse à tristeza e ao mal-estar. 3 O culto doméstico do Evangelho foi restaurado. O próprio Henrique de Saint-Pierre associou-se ao movimento, partilhando das reflexões religiosas com muita satisfação. A inspiração da filha de Madalena causava-lhe surpresa cariciosa. Sua palavra penetrava problemas complexos da existência, como se já tivesse vivido numerosos séculos em contato com os homens. Para Henrique, tais reuniões tinham caráter providencial. Indiretamente, a irmã de sua noiva, sem qualquer intenção, preparava-lhe o espírito para as tarefas sagradas do lar, para os benefícios do casamento. O rapaz começou por abandonar as companhias perigosas que, não raro, tendiam a comprometer-lhe o nome e a saúde; a vida revelou-lhe profundos segredos, seu coração parecia agora aberto para o orvalho divino do sentimento superior. Incansável no trabalho, Alcíone estendeu o culto dominical aos serviçais numerosos. Todos puderam participar das bênçãos de Jesus, no vasto salão que Beatriz mandou preparar jubilosamente. O movimento familiar continuava em santas vibrações de fraternidade e alegria. A moça Vilamil organizou hinos de carinhosa devoção a Deus, que as crianças dos servidores entoavam, com encanto singular. O cravo parecia falar harmoniosamente da fé, sob a pressão dos seus dedos. A filha de Susana não cabia em si de contente. A grande residência de Cirilo perdeu o aspecto sombrio, adquirido em todo o curso da moléstia da viúva Davenport. Júbilo sadio estabelecera-se entre todos. Quando alguém demonstrava indisposições súbitas, recordava-se o ensinamento do Cristo e o culto doméstico ia ganhando todos os corações.


4 O enlace de Beatriz e Saint-Pierre realizou-se com muita simplicidade, e concorrência, apenas, das relações mais íntimas.

Alcíone acompanhou satisfeita todos os trâmites do auspicioso evento, mas, em seguida, entrou num período de grande abatimento, do qual apenas saía nas horas rápidas do culto familiar. A filha de Madalena não conseguia furtar-se à saudade dos seus inesquecíveis ausentes e, simultaneamente, experimentava a falta do trabalho ativo, que se tornara a incessante religião dos seus braços fraternos.

A irmã impressionou-se. Que fazer para arrancá-la daquela melancolia que a empolgava devagarinho? Ela esquivava-se às festas sociais, não tinha inclinação para os prazeres do seu tempo. Tendo passado dos trinta anos, seus traços fisionômicos conservavam a beleza da primeira juventude, revelando, ao mesmo tempo, a madureza do espírito. Beatriz começou a pensar, seriamente, em inclinar-lhe a alma sensível e afetuosa para um casamento feliz. Dominada por esses pensamentos, a esposa de Saint-Pierre aproximou-se certo dia da irmã e lhe disse, com bondade:

— Tenho andado bastante cuidadosa de ti e preciso cooperar para que a tristeza seja banida do teu coração e dos teus olhos!…

— Por que te afligires, minha querida? O repouso involuntário de nossas mãos costuma agravar o esforço dos pensamentos. Não estou acabrunhada, podes crer. Tenho meditado um pouco mais e essa circunstância te induz a perceber mágoas imaginárias em meu espírito.


5 Beatriz abraçou-a com enternecimento e falou:

— O coração me diz que não estou enganada. Consomes-te a olhos vistos. Por vezes, Alcíone, quando em passeio com Henrique, não posso evitar que meu júbilo se misture ao remorso…

— Mas, como assim, querida?

— Não me conformo em ser feliz só por mim, quando mereces as bênçãos do Céu, muito mais que eu.

Depois de ligeira pausa, a filha de Susana continuava:

— Quem sabe desejarias fazer alguma viagem que te distraísse? Essa providência seria mais que justa, após tantos anos de luta e sacrifício. Quando não quisesses ir a país estrangeiro, poderias descansar em alguma praia e fortalecer-te em contato direto com a Natureza.

— Mas, se eu estou muito bem e nada me falta?


6 Beatriz contemplou-a, com mais carinho, e, quase suplicante, tornou a dizer:

— Alcíone, desejava lembrar uma possibilidade, pelo que espero me perdões com a tua generosidade fraternal…

A irmã comoveu-se com o acento caricioso daquelas palavras e obtemperou:

— Dize sem receio. De que se trata?

— Tenho pedido a Deus, ansiosamente, me conceda a alegria de ver-te formando igualmente um lar, onde um esposo fiel ilumine a tua estrada com as bênçãos de uma ventura sem fim. Se te pudesse ver amada por um homem leal e puro, cercada pela ventura de filhinhos carinhosos, como seria feliz!… Dá-me a satisfação de te auxiliar a refletir nesse particular…


7 Beatriz notou que a irmã fazia enorme esforço para reter as lágrimas. Adivinhando o seu embaraço para responder, a esposa de Henrique ganhava ânimo para prosseguir:

— Eu e meu marido vimos pensando na colônia distante, onde os nossos bens materiais são consideráveis. Henrique vem ultimando alguns negócios e creio que, daqui a alguns meses, tomaremos a nova decisão. Meus tios insistem pelo meu regresso e, além deles, temos na América velhos amigos de meu pai a nos esperarem de braços abertos. Claro que não dispensamos tua companhia e peço-te permissão para ir meditando, desde já, na tua felicidade futura. Na minha terra natal, encontrarás relações carinhosas e devotadas, e — quem sabe? — talvez Jesus te reserve por lá um esposo fiel e cristão, que faça por ti tudo que te desejamos de coração.


8 Alcíone comoveu-se profundamente. O terno respeito de Beatriz, a delicadeza da sua exposição, penetraram-lhe o espírito como um bálsamo celestial. Demonstrando o interesse de sua dedicação fraterna, respondeu reconhecidamente:

— E se te dissesse que tenho meu coração prisioneiro, desde a primeira mocidade?

A esposa de Saint-Pierre, com um franco sorriso, revelava o prazer que a declaração lhe causava. Se a filha de Madalena Vilamil já havia elegido o homem do seu afeto, não lhe seria difícil contribuir eficazmente para a sua ventura. Ansiosa e confortada, Beatriz insistia de olhos muito brilhantes:

— Ah! conta-me tudo! Certo, o feliz eleito de tua alma não estará aqui em Paris. Quem sabe é algum gentil-homem espanhol, a esperar tua resolução há longo tempo?


9 Reconhecendo a sinceridade da irmã, Alcíone passou a historiar a sua juventude, recordando a figura de Clenaghan com a vivacidade dos seus imensos tesouros afetivos. Longas horas estiveram ambas no divã, desfiando o rosário das lembranças queridas. A filha de Susana seguia as palavras da irmã, demonstrando enorme estupefação, pela sua capacidade de sacrifício. Alcíone crescia espiritualmente, cada vez mais, no seu conceito. Ao terminar o relato de suas agridoces reminiscências, a jovem esclarecia:

— Quando nos encontramos pela última vez, aqui em Paris, notei que ele não podia compreender os meus deveres filiais. Estava taciturno, talvez irritado com as lutas da sorte. Não podia ver em mim senão a noiva que lhe atendesse ao ideal humano, mas eu ainda retinha comigo deveres sagrados para com meus pais, e não pude acompanhá-lo de volta a Castela. W Ele não se despediu de mim, mas o fez de mamãe, antes de se pôr a caminho do Havre; W e mamãe sempre dizia que o notara bastante transformado, suspeitoso e desesperado. Sofri com isso muito mais do que se pode imaginar, mas entreguei a Jesus as minhas mágoas íntimas. Lembro-me, perfeitamente, de que, impossibilitada de lhe revelar o que ocorria entre minha mãe e meu pai, que o destino havia separado, prometi que o procuraria a qualquer tempo que as circunstâncias permitissem…


10 — E não terá soado essa hora de conciliação? — interrogou Beatriz ansiosa por lhe renovar o bom ânimo.

— Tenho pensado nisso, sinceramente, nestas últimas semanas — confessou a filha de Madalena, prazerosa por sentir-se compreendida. — Estou certa de que Carlos confia na minha sinceridade e não terá desposado outra mulher. Nesta fase de minha vida, talvez lhe possa ser útil, poderia concorrer para seu retorno à vida religiosa, embora sem esperança de reintegrá-lo no ministério sacerdotal.

— Que dizes? — murmurou a esposa de Saint-Pierre com infinito carinho. — Não penses obrigá-lo a retomar um serviço contrário à sua vocação. Teu coração e o do homem amado têm direito ao banquete da vida. Hás de casar-te e conhecer a felicidade que parecia remota e irrealizável. Quero beijar teus filhinhos, num futuro risonho.


11 O semblante de Alcíone iluminou-se, mostrando a beleza do seu mais secreto ideal de mulher. Ruborizada e quase feliz, perguntou:

— Supões, acaso, Beatriz, que Deus ainda me concederá semelhante felicidade?

— Por que não? — voltou a dizer a interlocutora com sereno otimismo. — Estás moça e bela, como aos vinte anos. É preciso cuidarmos imediatamente do contato com Ávila. W

A filha de Madalena dirigiu à irmã um olhar significativo e indagou:

— Estarias de acordo que eu fosse até lá? Tenho desejado surpreender Carlos com o exato cumprimento de minha palavra.

— Sem dúvida — respondeu Beatriz bem humorada, ao perceber que novas esperanças brotavam daquela alma generosa e santificada —; se fosse possível, acompanhar-te-ia. Creio não ser possível, mas tudo se arranjará de maneira a visitares Castela-a-Velha, W na primeira oportunidade.

— Irei sozinha — esclareceu Alcíone, de olhos vivazes.


12 No dia seguinte, ao almoço, Henrique de Saint-Pierre partilhava do entusiasmo de ambas.

— Beatriz me fez ciente de tuas intenções — disse-lhe em tom fraternal — e podes crer que já estou à espera de Clenaghan, com justa ansiedade. Preciso de um companheiro para o desdobramento de nossos negócios. Claro que não necessitamos de capital, mas sim de um auxiliar operoso e leal, que nos ajude a zelar o patrimônio adquirido. Sinto que teu futuro esposo solucionará o nosso problema.

— Ah! sim — respondeu Alcíone risonha — Carlos é um homem honesto e trabalhador. É verdade que faltou ao compromisso sacerdotal, falta essa que não pude aprovar, desde os primeiros tempos em que a decisão não passava de projeto; mas nada se poderá dizer contra a sua lealdade. É portador de caráter nobre e de valorosos sentimentos.

— Para nós, será um irmão — disse Beatriz satisfeita.

— Certamente — continuou Saint-Pierre atencioso — já se entenderam sobre a nossa transferência para o Novo Mundo?

— Sim — acentuou a filha de Madalena, confortada.

— Pois bem — prosseguiu o novo chefe da casa —, Clenaghan irá conosco, como pessoa da família. Quanto a ti, Alcíone, conheço o plano de viagem à Espanha, onde cuidarás da agradável surpresa ao teu escolhido. Quisera seguir-te e mais a Beatriz, mas negócios urgentes impedem faze-lo. Poderei, no entanto, mandar um empregado ao Havre, a fim de conhecermos o movimento das embarcações mais seguras. Se queres, poderei designar alguém que te acompanhe na viagem tão longa…


13 Sinceramente reconhecida, a moça obtemperou:

— Não há necessidade, Henrique. Poderei seguir só, visto conhecer o caminho Além disso, Ávila é como se fosse minha segunda pátria. Tenho lá inúmeras amizades.

— Não temos qualquer objeção a fazer. Apenas formulo votos ao Céu para que a tua ventura se processe rapidamente. Dirás a Carlos Clenaghan que o esperamos nesta casa, com interesse e simpatia. Para mim, Alcíone — acrescentava Saint-Pierre comovidamente —, nunca foste a governanta de Beatriz, mas nossa irmã muito amada, pelos laços sacrossantos do espírito. O companheiro de tua escolha será pessoa sagrada aos nossos olhos. Em chegando a Ávila, anima-o a vir em tua companhia, com presteza. Esperaremos tua volta, para então marcar a viagem para a colônia.

Alcíone não sabia como traduzir sua gratidão. Em frases carinhosas, manifestou o sincero agradecimento d’alma, ficando ali mesmo aprazada a viagem à Espanha.


14 Precisamente daí a um mês, Beatriz e o esposo acompanhavam a irmã até o Havre, onde Alcíone, corajosamente, tomou a embarcação que a levaria ao porto de Vigo. W

Após as despedidas, quando o navio se afastava da costa francesa, levado por ventos favoráveis, a filha de Madalena encontrou-se à sós com as suas profundas recordações. As figuras da genitora, de Robbie e padre Damiano apresentavam-se-lhe à mente, mais vivas que nunca. Era necessário muita energia para não cair em pranto, em face da saudade que lhe pungia o coração. Aqui, era um detalhe do mar, que havia impressionado o irmão adotivo; acolá, um aspecto da costa que provocara certas explicações do velho sacerdote. Recolhida em sentimentos carinhosos, a filha de Cirilo desembarcou em terra espanhola, com o peito oprimido de infinitas esperanças. Nunca mais tivera notícias de Clenaghan, era bem possível que não mais estivesse em Castela-a-Velha; no entanto, suas relações de Ávila não faltariam com os informes precisos.


15 A condução para a cidade da sua meninice não foi difícil. Em poucos dias, chegava ao seu destino. Embora provocasse a estranheza de muitos o fato de encontrar-se desacompanhada, Alcíone mostrava a atitude superior aos olhares curiosos que pareciam interrogá-la. Não encontrou qualquer diferença na paisagem. O berço de Teresa de Jesus repousava na terra pobre, cioso de suas velhas tradições.

Às dez horas do dia, dava entrada em humilde hotel, naturalmente fatigada e deliberou não procurar as amizades antigas, até que se alojasse convenientemente, de maneira a não se tornar pesada a ninguém, pela sua chegada imprevista. Identificou, de pronto, velhos conhecidos da mocidade, a quem, entretanto, não se revelou por não haver bastante intimidade. Depois de refeita da fadiga imensa, chamou um pequeno servidor da hospedaria, perguntando-lhe um tanto acanhada:

— Meu amiguinho, você poderá informar-me se reside aqui, em Ávila, um senhor chamado Carlos Clenaghan?

Após refletir um momento, o rapazote esclarecia:

— Sim, senhorita, conheço.

A viajante verificou que o coração lhe palpitava com mais força.

— Sabe se é de origem irlandesa, domiciliado em Castela há alguns anos? — voltou a interrogar atenciosamente.

— Sim, é isso mesmo e sei mais que foi padre, noutro tempo. Hoje é comerciante abastado.


16 Alcíone ouviu-o comovida. Não podia enganar-se. Pensou, então, em surpreender o espírito do amado em intimidade cariciosa. Convidá-lo-ia, por um bilhete, a comparecer, à tarde, junto à nave da igreja de São Vicente. Encontrar-se-iam na casa consagrada a Deus, onde tantas vezes haviam tecido muitas redes de sonhos e esperanças, sempre desfeitos pelo vendaval das realidades dolorosas. Agora, porém, era lícito tratar do seu porvir venturoso. Escrever-lhe-ia sem se dar a conhecer no bilhete, declarando-se chegada de Paris, com notícias alvissareiras para o seu coração. Quando chegasse ao velho templo, vê-la-ia então, compreenderia a sua fidelidade e devotamento. Logo após o reencontro, visitariam juntos as antigas relações afetuosas, buscariam rever o sítio de sua infância, bem como a casa modesta em que sua mãe trabalhara tantos anos, curtindo as maiores privações.

Assim procedeu embalada por santas expectativas do amor desvelado e confiante.


17 O rapaz que a esclarecera, longe de adivinhar o romance da nova hóspede, foi emissário da breve notícia ao ex-religioso, que leu o bilhete assaz intrigado. Carlos identificaria aquela letra, entre mil manuscritos diversos. Mas era impossível, em seu modo de ver, que Alcíone estivesse na cidade. A autora da grafia, por mera coincidência, deveria ter o mesmo tipo de letra, que jamais conseguira esquecer, no círculo das experiências pessoais. Não conseguia concatenar outras explicações. Curiosidade febril avassalava-lhe a alma. Que notícias de Parias poderiam ser enviadas ao seu coração? De há muito considerava Alcíone perdida, no capítulo das suas aspirações mais sagradas. Dela não deveria esperar qualquer mensagem. Todavia, dilatando as ponderações, começou a imaginar que se tratasse de algum recado de Madalena Vilamil ou de Robbie, amigos dos quais não tinha notícias, desde que regressara da França, onde fora na suposição de encontrar a noiva conformada aos seus caprichos de homem apaixonado. Presa de intensa sofreguidão, aguardou o crepúsculo ansiosamente.


18 Antes do entardecer, Alcíone dirigiu-se ao velho templo W que constituía um centro de lembranças sagradas ao seu espírito sensível. Ajoelhou-se e orou à frente dos nichos, recordando, a cada passo, o velho sacerdote a quem consagrara o devotamento de filha afetuosa.

Olhar indagador, de quando em quando perscrutava o caminho, a ver se Clenaghan atendia ao convite.

Por fim, quando o céu desmaiava aos derradeiros clarões crepusculares, um homem surgiu no adro, W fazendo-lhe o coração vibrar em ritmo acelerado.

O sobrinho do padre Damiano aproximava-se. Alcíone notou-o um tanto abatido, parecendo cansado das lutas da vida. Intenso desejo de proporcionar-lhe consolação e conforto aflorou-lhe n’alma sensível.

Prestes a atravessar a portaria primorosa, o ex-religioso viu que alguém avançava ao seu encontro.

— Carlos!… Carlos… — disse a filha de Madalena com infinita emoção.


19 O recém-chegado estacou tomado de assombro. Enorme palidez cobriu-lhe a fisionomia, quis prosseguir, mas as pernas trêmulas paralisavam-lhe o impulso. A inesperada presença de Alcíone enchia-o de profunda admiração. Debalde procurava palavras com que pintasse o estado de espírito, em que o júbilo se confundia com a dor. A filha de Cirilo tomou-lhe a mão e falou com meiguice:

— Não me reconheces? Venho cumprir minha promessa.

— Alcíone!… — conseguiu dizer o interlocutor num misto de sentimentos indefiníveis.

Um abraço carinhoso seguiu-se a essas palavras. Compreendendo-lhe a perturbação natural, a moça procurou confortá-lo:

— Ah! se eu soubesse, antes, que te causaria este forte abalo, não teria feito esta surpresa!… Perdoa-me…


20 Carlos se debatia intimamente entre ideias antagônicas. Diante dele estava a mulher amada, que as lutas da existência não fizeram esquecer. Alcíone era sempre o seu maravilhoso e único ideal. As experiências vividas, longe da sua dedicação e dos seus conselhos, eram provas amargas que, aos poucos, lhe atassalhavam o coração repleto de santas esperanças. Mas, simultaneamente, recordava com estranheza a atitude da jovem em Paris, quando não pudera apreender todo o motivo das suas elevadas preocupações filiais. No seu conceito, a eleita trocara o seu amor pelos atrativos do mundo. Jamais conseguira olvidar aquele palacete da Cité, W onde a moça havia penetrado intimamente apoiada ao braço de um homem.

Mal se desembaraçava no meandro dessas reflexões, quando a interlocutora voltou a dizer:

— Vamos respirar o ar fresco da noite que desce. Deus me concede a dita de reatar os inefáveis colóquios de outros tempos, neste mesmo ambiente das nossas primeiras emoções.


21 O ex-sacerdote acompanhou-a maquinalmente. Antigo banco de pedra parecia esperá-los para a revivescência dos mesmos idílios.

Clenaghan perguntou pelos amigos, recebendo com dolorosa surpresa a notícia da morte de Madalena e Robbie, impressionando-se vivamente com a descrição do desastre que vitimara o músico Alcíone o embevecia com os comentários criteriosos quanto emotivos. Tudo, na sua elocução vibrante, ressumava amor e devotamento. Ele a contemplava com paixão, dando mostras de que esperava, ansiosamente, aquele bálsamo divino que lhe manava dos lábios. Em dado instante, respondendo a uma observação que ela lhe fazia com mais carinho, o ex-sacerdote acentuou:

— Nunca pude forrar-me à magoa que a tua atitude me causou. Senti que me tratavas friamente.

— Naquela ocasião, Carlos, Jesus me pedia testemunhos de filha, aos quais não poderia fugir senão pelos atalhos escusos da crueldade.

Ignorando ainda toda a extensão dos sacrifícios da eleita de sua alma, o pupilo de Damiano objetou:

— Mas, se me oferecia para trazer tua mãe e Robbie em nossa companhia? Poderíamos ter sido infinitamente felizes se a isso não te opusesses…


22 A tonalidade impressa a essas palavras fez que a interlocutora enrubescesse, calando-se.

— Que fazias, naquele palacete da Cité? Por que saías de casa a pé e ias tomar um carro discretamente? Ignoras que te segui os passos sem que me visses e que observei o homem que te abraçou, no portão, quando lá chegavas sorridente? Ah! Alcíone, não podes compreender todo o veneno que me lançaste n’alma confiante. Jamais poderia imaginar que Paris te transformasse o espírito, a ponto de olvidar nossos compromissos e contrariar tua mãe enferma, cuja evidente preocupação era abandonar a capital francesa para voltar à vida simples de Ávila, onde havíamos afagado tantas esperanças e sido tão felizes!…

A moça, depois de prestar muita atenção aos seus gestos e palavras, sentenciou:

— Não devias ter ido tão longe no teu julgamento. Agora que nos reencontramos para nos compreendermos de uma vez para sempre, devo tudo dizer com franqueza. Sabes quem era aquele homem que me recebeu de braços abertos, naquela manhã?

Deteve-se ante a muda expectação do companheiro e prosseguiu:

— Aquele homem era meu pai!…

— Teu pai! — exclamou Clenaghan aterrado.


23 E ela pausadamente começou a relatar todos os acontecimentos de Paris, a partir do instante em que a enfermidade do padre Damiano lhe impusera desdobrar-se em tarefas mais práticas. À medida que se desdobravam as revelações, o rosto de Carlos mais se anuviava. O ex-sacerdote sempre reconhecera na jovem as qualidades mais primorosas, mas não e nunca a supusera capaz de tamanha renúncia. Extremamente comovida com a evocação de suas reminiscências dolorosas, Alcíone rematava:

— Não acreditas que tenha cumprido meu dever sagrado? Não admitas que meu coração pudesse haver esquecido a tua dedicação e o teu amor. Desde o nosso primeiro encontro venho arquitetando um meio de enriquecer-te a alma de idealismo e confiança. Sempre sonhei, para o teu caminho, um mundo de felicidades nobilitantes. Antigamente, tuas obrigações sacerdotais impuseram-nos a separação; mesmo assim, porém, vibrava na ansiedade ardente de embelezar teu roteiro de nobres aspirações. Lutei para que não abandonasses o que sempre considerei uma sublime tarefa; entretanto, hoje busco harmonizar minhas ideias com a tua decisão e sinto que a consciência pura é o melhor dote que te posso trazer para a nossa eterna aliança…


24 Ouvindo-a, generosa e confiante, Carlos Clenaghan sentia-se pequenino e miserável.

— Perdoa-me!… — disse, banhado em lágrimas de sincera compunção.

— Compreender-te-ei agora por toda a vida — esclarecia Alcíone de olhar muito lúcido —, mas… por que choras? Temos ainda numerosas oportunidades de servir a Deus e a nós mesmos. Prometi que te procuraria logo que Jesus me permitisse o júbilo do dever cumprido e aqui estou para cuidar da tua, da nossa felicidade. Creio que não tens qualquer necessidade material, mas o marido de minha irmã, que, aliás, desconhece o passado que te confiei em caráter confidencial, põe à tua disposição bastos recursos para grande prosperidade na América. Se quisesses, poderíamos partir talvez no ano próximo, recomeçando o destino numa terra nova. Lembro que minha mãe sempre suspirou pelo Novo Mundo… Quem sabe sua alma bondosa me inspira, agora, o caminho mais certo, acenando-nos com a possibilidade de partir?!… Henrique de Saint-Pierre espera-te como a um irmão. Além disso, tenho também regular pecúlio que deposito em tuas mãos. Não tenho outra preocupação direta, presentemente, a não ser tu mesmo!…


25 E observando que o moço mantinha-se calado, em pranto, prosseguia com solicitude:

— Releva-me se te falo assim abertamente. A confiança de um coração não pode morrer. Dize-me, pois, se queres partir, para tentar vida nova sob as bênçãos de Deus. Estou certa de que viveremos felizes, em perpétua e santa união…

— Não posso! — sussurrou Clenaghan lastimosamente.

— Por quê? — indagou Alcíone plenamente confiante.

Ele esboçou um gesto tímido, revelando a vergonha que o assomava e explicou com indizível tristeza:

— Estou casado há mais de dois anos.


26 A moça sentiu que o sangue lhe gelava nas veias. Jamais pudera admitir que o dileto do seu coração fosse capaz de olvidar antigos juramentos. O inopinado da revelação esmagava-lhe a alma toda. Lágrimas ardentes, arrancadas do íntimo, afloravam-lhe aos olhos, mas, na meia sombra da noite, buscava dissimulá-las cuidadosamente.

Vendo que tardava em manifestar-se, Clenaghan apertou-lhe a mão e perguntou com a delicadeza de uma criança:

— Poderás perdoar-me outra vez?

A filha de Madalena recuperou as energias íntimas e falou com serenidade:

— Não te preocupes comigo, Carlos. Reconheço, agora, que a vontade de Deus é outra, a nosso respeito. Não chores nem sofras.

Extremamente comovido com aquela prova de humildade e renúncia, o ex-sacerdote ponderou:

— Sou casado, Alcíone, mas não feliz… Nunca pude esquecer-te. Certamente, Deus nos criou para a união eterna. Cada coisa do lar, cada pormenor da vida doméstica lembra-me teus sentimentos nobres, porquanto minha mulher não pode substituir-te.

— Sim — disse a moça com desvelado carinho —, também creio que há um casamento de almas, que nada poderá destruir. Este deve ser o nosso caso. O mundo nos separa, mas o Altíssimo nos reservará a aliança eterna do Céu.


27 O pupilo de Damiano tinha o peito oprimido por indefinível angústia. Coração prisioneiro das indecisões de quantos se afastam do dever divino, voltou a dizer:

— Quem sabe, Alcíone, poderíamos repudiar as algemas terrestres e construir nossa felicidade longe daqui?… Minha mulher e eu vivemos em rixas constantes, atravesso a vida sem paz, sem uma dedicação verdadeiramente sincera. Estou pronto a seguir-te, desde que aproves este recurso extremo, em detrimento de meus compromissos atuais.

— Isso nunca! — exclamou a filha de Madalena com bondade enérgica — amemos os trabalhos de nossa estrada, por mais duros que nos pareçam. Jamais construiríamos um ninho de ventura e de paz na árvore do crime. Deus nos dará coragem nesta fase difícil. A existência na Terra não constitui a vida em sua expressão de eternidade. Quando o Senhor desatar os laços a que te prendeste num impulso muito natural e humano, encontrarás de novo meu coração… A esperança é invencível, Carlos. Toda inquietação, toda amargura, chegam e passam. A alegria e a confiança no porvir eterno permanecem. São bens do patrimônio divino no plano universal…


28 Ouvindo-lhe os conceitos profundos oriundos da fé poderosa que lhe caracterizava o Espírito, Clenaghan chorava num labirinto de remorso e sofrimento.

— Se for possível — prosseguia a moça com generosidade — desejaria conhecer tua companheira de lutas. Talvez pudesse incliná-la a melhor compreensão das tuas necessidades. As vezes, basta uma simples conversação para renovar a opinião de uma criatura. Não crês que eu possa contribuir, de algum modo, em teu favor, com semelhante aproximação?

O infortunoso Carlos sentia-se comovido nas fibras mais íntimas, com o delicado oferecimento, redarguindo em tom melancólico:

— Quitéria não é digna dessa esmola da tua bondade. Basta dizer-te que, conhecendo a ligação afetiva existente entre nós, pelas minhas sucessivas referências e por informações de antigas amizades nossas, em Ávila, W sempre alude à tua pessoa com laivos de ironia e rancor.


29 A filha de Cirilo entrou em silenciosa meditação. O destino não lhe permitia nem mesmo aproximar-se do lar edificado pelo eleito de sua alma. Sua afetividade, bem como o espírito de renúncia não poderiam ser compreendidos. Restava-lhe regressar à casa de Beatriz, conformar-se com a nova situação e esperar por Clenaghan num outro mundo, aonde fosse conduzida pela mão da morte. Longa pausa estabelecera-se entre ambos. Foi aí que lhe nasceu a ideia de consagrar-se à solidão da vida religiosa, no intuito de trabalhar no seu elevado idealismo.

— Não ficas magoada pelas minhas confissões? — perguntou o ex-sacerdote angustiado.

— De modo algum — respondeu, esforçando-se por lhe parecer satisfeita —, tua esposa tem razão. Depois de visitar o velho sítio de minha infância e a casinha tosca onde minha mãe, tantas vezes, me exemplificou a resignação, voltarei à França sem perda de tempo.

— Quando nos veremos novamente? — interrogou ele inquieto.

— A vontade de Deus no-lo dirá mais tarde. Até lá, meu querido Carlos, não esqueçamos a dedicação aos nossos deveres e a obediência aos divinos desígnios.

— Deixas-me em Castela, amargurado para sempre. Creio que jamais poderei apagar o remorso que tisnará minh’alma doravante. Aprenderei, duramente, a não atender aos primeiros impulsos do coração. Se fosse menos precipitado no julgar, poderia oferecer-te, agora, a minha fidelidade perene. Esqueci, porém, a prudência salvadora e mergulhei num mar de angústias torturantes. Andarei, na Terra, como náufrago sem porto.


30 E terminando amargamente as suas considerações, rematava:

— Pede a Jesus por mim, para que o desespero não me faça mais infeliz.

— Não te percas em semelhantes ideias — exclamou a filha de Madalena, completamente senhora de si —, estamos neste mundo, de passagem para uma esfera melhor. Por certo que a nossa felicidade não se resumiria em atender, por algum tempo, aos nossos desejos, com o olvido das mais nobres obrigações. É indispensável encarar as dificuldades com ânimo decidido. Luta contra a indecisão, pela certeza de que Deus é nosso Pai, misericordioso e justo… Se nos vemos novamente separados, é que há trabalhos convocando-nos a testemunhos mais decisivos, até que nos possamos reunir nas claridades eternas.


31 Clenaghan prestava acurada atenção a cada uma de suas palavras sábias e carinhosas. Em seguida a uma pausa, Alcíone prosseguia cheia de amor e compreensão:

— Não maltrates tua mulher, sempre que o seu coração não te possa entender integralmente. Quando assim for, faze por ver nela uma filha. Quando não filha de tua carne, filha de Deus, seu e nosso Pai. A bondade liberta o ódio e a desesperação agrava os laços mesquinhos. A confiança em que o Pai Celestial nos ajudará, nos testemunhos diários, transforma nosso espírito para uma vida mais alta, ao passo que a revolta e a dureza nos prendem espiritualmente ao lodo das mais baixas provações. Ainda que tua companheira seja ingrata, perdoa-lhe como amigo compassivo. Nenhum de nós está sem pecado, Carlos. Por que condenar alguém ou agir precipitadamente, quando também somos necessitados de amor e de perdão? Vive no otimismo de quem trabalha com alegria, confiante no Divino Poder. À nossa frente desdobra-se a eternidade luminosa!… Embora separados no plano material, nenhuma força da Terra nos desligará os corações. Muitas obrigações poderão encarcerar-nos transitoriamente na Terra, mas o elo do amor espiritual vem de Deus, e contra ele não prevalecem as injunções humanas…

Ante as observações judiciosas de Alcíone, Carlos pôde reconfortar-se, de algum modo, para retomar a luta purificadora. Só muito tarde separaram-se em penosas despedidas.


32 A filha de Madalena, disfarçando a dor que a empolgava, cumpriu rigorosamente a promessa. Depois de beber na taça da saudade, revendo os antigos sítios das primeiras esperanças, sem mesmo se dar a conhecerás relações de outros tempos, regressou a Vigo, onde se demorou quase um mês em meditações silenciosas e doridas. Sua permanência em Ávila poderia acarretar complicações à vida doméstica do homem escolhido. A jovem esposa de Clenaghan, possivelmente, criaria pesadelos de ciúme, sem justificativa. Diariamente, à tardinha, Alcíone aproximava-se da praia, contemplando as velas pandas que se afastavam no estendal das águas movediças. Profunda saudade dominava-lhe o coração. Após longos dias, nos quais procurava rememorar, uma a uma, as velhas advertências do Padre Damiano, quando na vida religiosa, resolveu retirar-se do mundo para a soledade dos grandes pensamentos. Não desejava, de nenhum modo, atirar-se ao repouso permanente da sombra, mas, sentindo-se na plenitude de suas energias orgânicas, refletia que não era lícito pensar na morte do corpo e sim no melhor meio de atender ao trabalho, de coração voltado para Jesus. Se partisse em companhia de Beatriz, naturalmente não lhe faltariam as bênçãos da vida familiar, mas, o coração não se conformava com a ideia de repouso constante. O destino não lhe dera um lar próprio, onde lhe fosse possível consagrar-se inteiramente ao homem amado e aos filhinhos do seu amor. Seus pais já haviam partido para uma vida melhor, o irmão adotivo lhes fora no encalço. Na condição de mulher, tomaria, então, o hábito religioso, a fim de atender aos trabalhos do Cristo. Não faltariam os deserdados, os doentes, os enjeitados, para quem Jesus continuava passando sempre, nas estradas do mundo, distribuindo energias e consolações. Consagrar-se-ia ao serviço de socorro às criaturas, em beneficio dos que necessitassem. Iria ao encontro do Mestre, pelo aproveitamento mais nobre do tempo de sua vida.


33 Nessa disposição espiritual, regressou a Paris, W onde a irmã a esperava ansiosa e saudosa.

Apesar de serena e confortada na fé, não podia mascarar o abatimento e a tristeza que lhe pairavam na alma sensível, e foi com lágrimas que relatou à Beatriz o resultado da longa excursão. A esposa de Saint-Pierre, visivelmente emocionada, buscava confortá-la:

— Tudo isso passará com o tempo. Na América hás de achar lenitivo ao coração sofredor.

Mas a filha de Madalena comunicou-lhe a resolução de tomar outro rumo. Vestiria o hábito religioso, dedicar-se-ia ao coração de Jesus, enquanto lhe restassem forças no mundo. A irmã tentou dissuadi-la.

— E nosso lar? — perguntava a filha de Susana, ansiosa por lhe modificar a decisão. — Como nos seria dolorosa a falta de tua companhia.

Alcíone quis dizer que se sentia quase só, distanciada das afeições primitivas, mas, para não suscetibilizar a irmã devotada, objetou solícita:

— Pedirei, mais tarde, para visitar a América e passarei contigo o tempo que for possível, mesmo porque não é justo olvidar que teus futuros filhinhos serão também meus.

E não houve como lhe modificar o intento. De nada valeram as exortações de Henrique, os rogos da irmã, os carinhosos pedidos dos servos. A filha de Cirilo tinha uma palavra amável e um sincero agradecimento para todos mas justificava o caráter sagrado de suas intenções.


34 A mudança de Henrique de Saint-Pierre para o Novo Mundo já estava definitivamente aprazada, quando Alcíone assentou a data do seu ingresso num modesto recolhimento de freiras carmelitas.

Na véspera, sem que alguém o soubesse, visitou o túmulo da genitora, levando-lhe a homenagem do seu respeito filial, naquele instante grave da sua vida. Defronte do sepulcro, de alma colada às recordações afetivas, pôs-se de joelhos e monologou baixinho:

— Ah! vós que experimentastes largos anos de reclusão e sacrifício; vós, minha mãe, que fostes tão devotada e carinhosa, ajudai-me a levar a Jesus o voto silencioso de fidelidade até ao fim dos dias! Não me desampareis nas horas escuras, quando a saudade se fizer mais amarga ao meu coração. Inspirai-me pensamentos de fé, paciência e compreensão das coisas divinas. Auxiliai-me nos trabalhos, abençoai-me nos testemunhos. Não esqueçais, no Céu, da filha a quem tanto amastes na Terra!…

Em seguida à prolongada meditação, voltou ao palacete da Cité, despediu-se afetuosamente de todos os servos e, já na manhã imediata, Saint-Pierre e sua mulher abraçavam-na, compungidos, à porta do mosteiro.


35 Um ano de noviciado passou no qual a filha de Madalena deu provas exuberantes de coração puro e de consciência ilibada.

No dia que precedeu a resolução definitiva, a superiora chamou-a com austeridade, num gabinete particular, e sentenciou:

— Minha filha, estás francamente decidida a abandonar o mundo e os seus gozos?

— Sim, madre — respondeu, humildemente.

— Deves saber que coisa alguma do passado te poderá acompanhar até aqui.

A moça fez um gesto expressivo e rogou:

— Compreendo-vos; entretanto, pediria permissão de levar para minha cela um objeto muito caro.

— Que é?

— Um velho crucifixo que pertenceu a minha mãe.

— De acordo.

Depois de uma pausa, a madre abadessa voltou a perguntar:

— Que outros pedidos tens a fazer?


36 A nova professanda lembrou-se de Carlos, que não poderia excluir do coração e de Beatriz, a quem se sentia ligada por santo reconhecimento, e indagou:

— Desejava saber se poderei participar de algum trabalho na América, mais tarde, e se poderei futuramente pleitear minha transferência para algum convento de Espanha.

— Tudo isso é possível — esclareceu a superiora.

— E os teus bens?

— Assinarei amanhã o título de doação do que possuo, a benefício da nossa Ordem.

— No momento crítico de tua resolução, Alcíone Vilamil deve estar morta para o mundo profano. Que nome desejas adotar na suprema união com Cristo?

— Maria de Jesus Crucificado — disse, cândida e naturalmente.

Terminou o interrogatório.

No dia seguinte, pela manhã, em solene ritual, cercada pela admiração das companheiras e de numerosos clérigos, a filha de Madalena ajoelhou-se ante o altar de Jesus coroado de espinhos, e fitando o maravilhoso símbolo da cruz, de olhos brilhantes e confiantes, repetiu enternecida a frase sacramental:

“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a sua palavra.” (Lc)


.Emmanuel


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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