Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Preito de amor — Autores diversos


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Um certo devoto

  1 Um homem que se entregara à devoção,

  Havia muito tempo andava em ansiosa espera,

  Queria ver Jesus.

  Por isso, quase sempre, em profunda oração,

  Vivia em súplica sincera…

  Até que, certa noite,

  Viu, reverente, o Mestre

  Que o abraçava e prometia,

  Com palavras de aviso terno e exato,

  Visitá-lo no dia imediato.


  2 O devoto acordou… Amanhecia…

  Antes que o sol surgisse, inteiramente,

  Apresentando a Terra em novas cores,

  O amigo de Jesus, agindo como em festa,

  Varre a casa modesta;

  Depois, ei-lo a enfeitá-la,

  Desde a pequena sala

  Ao fogão da cozinha limpa e estreita,

  Com dezenas de flores,

  Estampando na face a alegria perfeita.


  3 Logo pela manhã,

  Bateu-lhe à porta um pobre em roupa esfarrapada,

  Mostrando pés e mãos em estranhas feridas.

  A rogar-lhe uns minutos de pousada,

  Através de expressões enternecidas,

  Alegando sofrer tribulações

  De comprida jornada;

  Mas o devoto respondeu:

  — Amigo, segue adiante,

  O seu caso é comum,

  Espero por alguém muito importante

  Não tenho tempo algum.

  O mendigo saiu, cambaleante.

  Depois de agradecer.


  4 Em seguida apareceu

  Triste rapaz errante,

  Demonstrando, no todo, traço a traço,

  Febre, penúria e dor, indigência e cansaço,

  Suplicando socorro ao devoto feliz…

  Ele, porém, lhe diz:

  — Põe-te à frente, rapaz, não tenho neste mundo

  A obrigação de abrir a porta de meu lar

  A qualquer vagabundo…


  5 Logo após, um menino pobre e triste

  Surgiu descalço e só,

  Corpo todo a encobrir-se sob o pó

  Das veredas difíceis que trilhara…

  Pedia pão e abrigo,

  Mas falou o devoto em voz segura e clara:

  — Hoje, espero um amigo,

  Não posso recolhê-lo ,

  Peça pão ao vizinho

  E segue o teu caminho…

  Aliás, para mim, é simples desmazelo

  Dos lares sem amor

  Que deixam a criança, um garoto qualquer,

  Pedir, pedir, pedir e andar como quiser

  Para depois fazer-se malfeitor…


  6 Mais tarde, ao fim do dia,

  Um velhinho doente, arrimado a um bordão,

  Respeitoso, rogava compaixão,

  Receava dormir exposto à noite fria

  E sair, ao relento,

  Aumentando a fadiga e o sofrimento.

  O devoto, no entanto, informou da janela

  — Não posso dar-te asilo,

  Não bata à minha porta e nem te escores nela…

  Aguardo alguém, contudo, segue em frente,

  Neste mesmo lugar encontrarás mais gente

  Que possa agasalhá-lo;

  Desculpa-me e recusa,

  É um amigo importante esse alguém de quem falo…

  Espero que terás leito e pousada

  Na primeira pensão, à direita da estrada.


  7 O dia terminou, e a noite veio escura,

  O devoto chorou, tomado de amargura,

  Mas dormiu e sonhou que reencontrava o Cristo;

  Assombrado, gritou: — Por que, por que Senhor,

  Não me queres a fé, nem me aceitas o amor?

  Preparei minha casa com cuidado

  A fim de demonstrar-te todo o meu carinho,

  E não quiseste vir ao meu recanto…


  8 — Como não? — disse o Mestre em doce explicação.

  — Hoje, por quatro vezes fui

  À tua casa, em vão;

  Por muito que te achasse, eu me via sozinho…

  Finda uma pausa, o Mestre esclareceu:

  — Recorda, amigo meu,

  O mendigo, o rapaz, o menino e o velhinho…

  Sei que teu coração não percebeu,

  Mas nos quatro viajores do caminho

  Estava eu

  A estender-te clarão renovador

  E te buscar em meu imenso amor.


  9 Nisso, o devoto em pranto

  Voltou ao corpo e veio a despertar…

  E relembrando o ensino, trêmulo de espanto,

  Começou a pensar…


.Maria Dolores



Essa mensagem foi publicada originalmente em 1988 pela editora GEEM e é a 19ª lição do livro “Assembleia de Luz


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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