Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Os mensageiros — André Luiz


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A desencarnação de Fernando

(Sumário)

1 Quando Aniceto retirou a destra da minha fronte, perdi a possibilidade de prosseguir nas observações do infinitesimal. Minha visão abrangia minúcias muito importantes ao interesse comum; entretanto, estava longe daquele poder de apreensão que me transmitira o mentor amigo, ao contato do seu elevado potencial magnético.

Centralizando minhas energias visuais, analisava ainda o sistema ósseo, o sangue, os tecidos, os humores, mas aquelas batalhas microscópicas haviam desaparecido como por encanto. De qualquer modo, porém, minha surpresa era enorme, porque agora identificava, em mim mesmo, a potencialidade do raio X.

Aniceto, depois de proporcionar a Vicente o mesmo estudo, movimentava providências novas.


2 No aposento, conservava-se determinado número de parentes aflitos. Um médico encarnado examinava o moribundo, com atenção.

Foi aí que as duas entidades que se mantinham no quarto, e que apenas nos haviam dispensado a usual saudação, se aproximaram do nosso instrutor, solicitando-lhe uma cooperação mais enérgica.

— Por favor, nobre amigo — disse a irmã que havia sido genitora do moribundo —, ajude-nos a retirar meu pobre filho do corpo esgotado. Há muitas horas, estamos à espera de alguém que nos possa auxiliar neste transe. Tenho procurado confortá-lo, mas em vão! — acentuou a nobre senhora em tom lastimoso — ele continua num estado de incompreensão dolorosa e terrível. Está absolutamente preso às sensações de sofrimento físico, como esteve ligado, no curso da existência, às satisfações do corpo.

Aniceto concordou, acrescentando:

— Notam-se, de fato, grandes lacunas na expressão mental do moribundo. Vê-se que atravessou a vida humana obedecendo mais ao instinto que à razão. Observam-se-lhe no mundo celular vastos complexos de indisciplina. Poderemos, contudo, ajudá-lo a desvencilhar-se dos laços mais fortes, no que se refere ao Círculo carnal.

— Será um caridoso obséquio — redarguiu a genitora, aflita.

— A irmã está incumbida de encaminhá-lo? perguntou o instrutor, compreendendo a magnitude da tarefa. — Precisamos ponderar, quanto a isto, porque o desprendimento integral se verificará dentro de poucos minutos.

Ela esboçou um gesto triste e respondeu:

— Desejaria sacrificar-me ainda um pouco por meu desventurado Fernando, mas apenas obtive permissão para socorrê-lo nos seus últimos instantes. Meus superiores prometem ajudá-lo, mas aconselharam-me a deixá-lo entregue a si mesmo durante algum tempo. Fernando precisa reconsiderar o passado, identificar os valores que, infelizmente, desprezou. As lágrimas e os remorsos, na solidão do arrependimento, serão portadores de calma ao seu espírito irrefletido. Grande é o meu desejo de conchegá-lo ao coração, regressando aos dias que já se foram; todavia, não posso prejudicar, com a minha ternura materna, a marcha do serviço divino. Fernando, em verdade, é filho do meu afeto; contudo, tanto ele como eu, temos contas com a Justiça do Eterno e, no que respeita a mim, estou cansada de agravar os meus débitos. Não devo contrariar os desígnios de Deus.

A essa altura do diálogo, interveio o clínico espiritual que nos encaminhara até ali, informando, atencioso:

— Nossa amiga tem razão. Fernando não poderá acompanhá-la, mas tão nobre tem sido a intercessão materna que tenho instruções para conduzi-lo a lugar seguro, a uma casa de socorro, onde poderá colher o melhor proveito do sofrimento, porquanto será asilado em zona vibratória inacessível às influências inferiores e criminosas, embora situada em regiões baixas.

— Já sei — murmurou Aniceto com grave entono —, trata-se de medida muito acertada.


3 Em seguida, acentuou como quem não tinha tempo a perder:

— A aflição dos familiares encarnados, aqui presentes, poderá dificultar-nos a ação. Observem como todos eles emitem recursos magnéticos em benefício do moribundo.

De fato, uma rede de fios cinzentos e fracamente iluminados parecia ligar os parentes ao enfermo quase morto.

— Tais socorros — tornou Aniceto — são agora inúteis para devolver-lhe o equilíbrio orgânico. Precisamos neutralizar essas forças, emitidas pela inquietação, proporcionando, antes de tudo, a possível serenidade à família.

E, aproximando-se ainda mais do agonizante, tomou a atitude do magnetizador, exclamando:

— Modifiquemos o quadro do coma.

Após alguns minutos em que nosso mentor operava, secundado pelo nosso respeitoso silêncio, ouvimos o médico encarnado anunciar aos parentes do moribundo:

— Melhoram os prognósticos. A pulsação, inexplicavelmente, está quase normal. A respiração tende a calmar-se.

Três senhoras suspiraram aliviadas.

— Dona Amanda — dirigiu-se o assistente à esposa do moribundo —, convém que vá repousar, levando as suas cunhadas. O senhor Fernando está muito tranquilo e a situação é francamente favorável. Ficaremos velando, o senhor Januário e eu.

As senhoras e mais dois cavalheiros, que se prontificavam a retirar, agradeceram satisfeitos e comovidos. Permaneceram no aposento somente o médico e um irmão do agonizante. A melhora súbita tranquilizara a todos. E, aos poucos, os fios cinzentos que se ligavam ao enfermo desapareceram sem deixar vestígios.


4 — Abramos a janela — disse o médico satisfeito —, o ar talvez acelere as melhoras do nosso amigo.

O senhor Januário atendeu, abrindo a ampla vidraça.

Fundamente espantado, reparei que três rostos horríveis pela expressão diabólica surgiram, de repente, no peitoril, e interrogaram em voz alta:

— Como é? Fernando vem ou não vem?

Ninguém respondeu. Notei, porém, que Aniceto lhes dirigiu significativo olhar, compelindo-os, tão só com essa medida, a desaparecer.

Meia hora passou, dentro da qual o médico e o senhor Januário, quase despreocupados do agonizante, pelas melhoras havidas, encetaram uma conversação animada, relativamente a problemas do mundo.

Aproveitou Aniceto a serenidade ambiente e começou a retirar o corpo espiritual de Fernando; desligando-o dos despojos, reparando eu que iniciara a operação pelos calcanhares, terminando na cabeça, à qual, por fim, parecia estar preso o moribundo por extenso cordão, tal como se dá com os nascituros terrenos. Aniceto cortou-o com esforço. O corpo de Fernando deu um estremeção, chamando o médico humano ao novo quadro. A operação não fora curta e fácil. Demorara-se longos minutos, durante os quais vi o nosso instrutor empregar todo o cabedal de sua atenção e talvez de suas energias magnéticas.

A família do morto, informada pelo senhor Januário, aflita penetrou no quarto, ruidosamente. A genitora do desencarnado, porém, auxiliada por Aniceto e pelo facultativo espiritual que nos levara até ali, prestou ao filho os socorros necessários. Daí a instantes, enquanto a família terrena se debruçava em pranto sobre o cadáver, a pequena expedição constituída por três entidades, as duas senhoras e o clínico, saía conduzindo o desencarnado ao instituto de assistência, reparando eu, contudo, que não saíam utilizando a volitação, mas caminhando como simples mortais.

Sentia-me fortemente impressionado. Intrigava-me, sobretudo, o aparecimento daqueles rostos satânicos quando se abrira a janela. Porque semelhante menosprezo a um agonizante?

Retirando-nos da residência, o instrutor me fitou atento, e, antes que formulasse qualquer pergunta, esclareceu:

— Não se preocupe tanto, André, com os vagabundos que esperavam nosso irmão infeliz. Só não penetraram na câmara de dor porque a nobre presença maternal impedia tal assédio.

E, depois de calar-se por momentos, acrescentou:

— Cada criatura, na vida, cultiva as afeições que prefere. Fernando estimava os companheiros desregrados. Não é, pois, estranhável, que tenham vindo esperá-lo na estação de volta à existência real. Paulo de Tarso, no capítulo 12 da Epístola aos Hebreus, afirma que o homem está cercado de uma grande “nuvem de testemunhas”. Ora, essa informação foi endereçada ao espírito humano há quase vinte séculos. Cada um, pois, tem o séquito invisível a que se devota na Terra. Mais tarde, quando a coletividade apreender a grandeza das lições evangélicas, todo homem terá cuidado na escolha de suas testemunhas.


.André Luiz


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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