Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

O Evangelho por Emmanuel — Volume I

Comentários ao Evangelho segundo Mateus

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Na grande transição n

1 Multiplicam-se conferências e examinam-se acordos que garantam a concórdia na belicosa família planetária.

2 Sangrando embora, não encontra o continente europeu suficiente recurso para adaptar-se aos impositivos da paz e, guardando ainda a hegemonia na técnica industrial do mundo, imprime graves perturbações ao ritmo político da comunidade internacional; não obstante o dilúvio de sangue que lhe cobriu o solo generoso, não é segredo o tremendo sacrifício dos orçamentos, em favor dos programas rearmamentistas. 3 Existem ali multidões ameaçadas pelo inverno, faltam reservas no balanço econômico, invoca-se o socorro de países bem aquinhoados pela natureza; no entanto, os generais desenrolam mapas minuciosos e extensos, sob as vistas de administradores, preocupados na ofensiva e na defensiva. 4 Clarins de convocação aprestam-se à chamada de jovens subalimentados, que mal procedem de uma infância vazia de ideais reconstrutivos.

5 Lutava-se antigamente pela extensão de poder, nos desregramentos do feudalismo dominador, atritava-se, ainda ontem, pelo acesso às matérias primas a fim de que a força se sobrepusesse ao direito, no caminho dos séculos, e abeiramo-nos, agora, de conflitos ideológicos gigantescos, em que a civilização do Ocidente sofre indescritível ameaça aos seus mais preciosos patrimônios.

6 É o ataque sutil das forças das trevas, mascaradas de liberdade que mais equivale a desvario.

7 Embalde se alinham propostas de desarmamento, porquanto, segundo já enunciou eminente pensador, “não foram as armas que criaram os homens e, sim, os homens que criaram as armas”. 8 Um espírito envenenado pelo ódio, sem fuzil que lhe obedeça as determinações, ferirá com os próprios braços e, se estes lhe faltam, desferirá execráveis vibrações, dilacerantes e esmagadoras, como aguçados estiletes de morte.

9 Infrutíferas todas as medidas restauradoras do mundo que não atinjam a personalidade humana, necessitada de dignificação. 10 A sociedade, constituída pelo organismo doméstico, pelo agrupamento, pelo partido ou pela nacionalidade, representa uma coleção de indivíduos e, por isso mesmo, sem a melhoria do homem, regendo os processos de trabalho, na intimidade do lar e do povo, é inútil a sistematização de reformas exteriores, impostas por revoluções e guerras destrutivas.

11 Advoga-se a “igualdade das oportunidades”, como fórmula ideal de socialismo cristão para as democracias; entretanto, partindo a premissa de pensadores evangélicos, urge compreender que essa igualdade de recursos já foi estabelecida pelo Governo divino do Planeta. 12 Admitido à experiência terrestre, o homem é bafejado por mil ensejos diferentes de aprender, evolver, iluminar-se e engrandecer-se. Tão grande “talento” é dor que aprimora quanto o dinheiro que favorece. E a criatura que se revolta no sofrimento edificante, convertendo bênçãos em crimes, é tão perniciosa à obra do Senhor como aquela que se vale das facilidades econômicas para estender o domínio das trevas.

13 Eis porque o problema da harmonia espiritual nunca será resolvido por ordenações exteriores.

14 O homem cristianizado é a coluna viva da democracia futura em que o reinado da Ordem, na estrutura do Estado, não colidirá com o reino de Deus, em construção na individualidade humana.

15 Não bastam leis benignas. Requisitam-se caracteres elevados que as respeitem e cumpram.

16 Não valem somente princípios enobrecedores. São necessários corações valorosos que aceitem as condições imprescindíveis à santificação.

17 A simples denúncia da guerra não atende. É imperioso suprimi-la da esfera de nós mesmos, ambientando o amor e a paz, na própria vida.

18 À face da superfície brilhante do oceano teórico, povoado de demonstrações negativas, Espíritos satânicos, encarnados e desencarnados, prosseguirão assoprando o mal nos círculos da evolução terrena, derribando, conspurcando, destruindo…

19 Enquanto não se capacitar o homem da grandeza da herança que o universo lhe reserva à condição de filho de Deus, é impossível a sublimação da humanidade.

20 Tanto se guerreava no tempo de Sargão I,  †  no apogeu da foice, quanto se luta presentemente no fastígio da eletricidade.

21 No fundo, é a rebeldia da personalidade ajustada à indiferença pelos próprios destinos, quando não vinculada ao narcótico do vício, erigido em condutor do homem e das massas.

22 A sabedoria do Eterno, porém, transforma os males da criatura em amarga medicação para elas mesmas. De experiência em experiência, a Europa, crucificada na defecção dos próprios filhos, que conferiram um trono externo ao Cristo, imaginando-o cercado de representações políticas, mas exilado dos corações em que deveria viver e reinar, acerca-se, hoje, de cataclismos inomináveis…

23 Das angústias coletivas, entretanto, surgirão claridades renovadoras.

24 Exorando as bênçãos do Altíssimo para que nossos males sejam atenuados com a remoção das nuvens que se adensam sobre os povos mais poderosos da Terra, suplicamos a Jesus fortaleça a gloriosa esperança do Novo Mundo.

25 — Grande América! Herdeira da Europa, dadivosa e flagelada, não permitas que a chuva de sangue e lágrimas desabe em vão sobre as tuas sementeiras de cristianismo!

26 Recebe as responsabilidades da civilização, de alma voltada para Aquele que é o Fundamento dos Séculos…

27 Consagra o direito, aceitando o dever do bem, cristianiza os teus programas de governo a fim de que o sofrimento e a expiação não te imponham renovações dolorosas!

28 Se a força tiraniza o serviço libertador do Evangelho ou escarnece da razão para perverter a inteligência, não vejas em semelhante perturbação senão o eclipse efêmero da sombra humana procurando debalde toldar a luz divina!…

29 E quando as nuvens de aflição houverem passado, quando as tormentas lavarem os céus, possas tu ouvir nos recessos do espírito a divina palavra:

— Bem-aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus! ( † )

30 Ser-te-á possível então responder, de consciência erguida para o alto:

— Bendito seja o Príncipe das Nações!


.Emmanuel



(Reformador, jan. 1948, p. 3)


[1] Nota da equipe organizadora: Este comentário foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial e nos trás uma notável reflexão sobre aquele grave momento da história da humanidade. Quando muitos cediam ao desespero e ao pessimismo, Emmanuel estabelece um vínculo entre aquelas circunstâncias e o Evangelho, demonstrando que em todas as épocas poderemos encontrar consolo e esperança nas palavras de Jesus; e que os desígnios de Deus, apontando sempre para o bem, o progresso e a paz, podem ser turvados momentaneamente pelas sombras passageiras, mas estas jamais serão capazes de obstá-los de maneira definitiva.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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