Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

O Espírito de Cornélio Pires — Cornélio Pires — F. C. Xavier / Waldo Vieira / Elias Barbosa


12


Nhô Manduco

“Recorde sempre: o anônimo da rua é nosso irmão.”


1 Lá se vai arrastando Nhô Manduco.

Um homem passa, rente, e a língua engrola:

— “Foge daqui, cachorro manquitola!”

Outro grita de longe: — “Sai caduco!”


2 É noite… A água da chuva é fino suco.

O barro é o cobertor a que se enrola.

Sente o mendigo o estalo da cachola

E morre feito sapo no tijuco.


3 Acorda Nhô Manduco libertado.

Contempla o próprio corpo, frio, ao lado…

Ergue-se tonto… Nada sabe ao certo…


4 Teme e treme… Mas nisso vê na altura,

A rebrilhar no horror da noite escura,

Um caminho de sol no céu aberto.


5 — “Reencarnação!… Que estopada!…” —

Comentou Nico Peão —

“O corpo é concha pesada

Que a gente arrasta no chão…”


6 “Afeição cega a razão”

Ideia a que não me encaixo.

Cabeça pensa por cima,

Coração fica por baixo.


7 Se o coração está rico

De bondade natural,

Nem a pobreza atropela,

Nem a riqueza faz mal.


8 Provérbio claro e bem-posto,

Sem margem à distorção:

Melhor vergonha no rosto

Que mágoa no coração.


Cornélio Pires



[As poesias destacadas com o texto em cor diversa do negro são devidas à psicografia de Francisco Cândido Xavier, e as outras à de Waldo Vieira.]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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