Bíblia do CaminhoTestamento Xavieriano

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Nosso Lar — André Luiz


36


O sonho

(Sumário)

1 Prosseguiram os serviços, incessantemente. Enfermos exigindo cuidado, perturbados reclamando dedicação.

Ao cair da noite, já me sentia integrado no mecanismo dos passes, aplicando-os aos necessitados de toda sorte.

Pela manhã, regressou Tobias às Câmaras e, mais por generosidade que por outro motivo, estimulou-me com palavras animadoras.

— Muito bem, André! — exclamou ele, contente, vou recomendá-lo ao Ministro Genésio e, pelos serviços iniciais, receberá bônus em dobro.

Ensaiava palavras de reconhecimento, quando a senhora Laura e Lísias chegaram e me abraçaram.

— Sentimo-nos profundamente satisfeitos — disse a generosa senhora, sorrindo —, acompanhei-o em espírito, durante a noite, e sua estreia no trabalho é motivo de justa alegria em nosso círculo doméstico. Disputei a satisfação de levar a notícia ao Ministro Clarêncio, que me recomendou cumprimentasse a você em nome dele.

Trocaram observações afetuosas com Tobias e Narcisa. Pediram-me relatório verbal de impressões e eu não cabia em mim de contente.

Minhas alegrias sublimes, porém, reservavam-se para depois.

Nada obstante o convite amável da genitora de Lísias para que voltasse a casa por descansar, Tobias pôs à minha disposição um apartamento de repouso, ao lado das Câmaras de Retificação, e aconselhou-me algum descanso. De fato, sentia grande necessidade do sono. Narcisa preparou-me o leito com desvelos de irmã.


2 Recolhido ao quarto confortável e espaçoso, orei ao Senhor da Vida agradecendo-lhe a bênção de ter sido útil. A “proveitosa fadiga” dos que cumprem o dever não me deu ensejo a qualquer vigília desagradável.

Daí a instantes, sensações de leveza invadiram-me a alma toda e tive a impressão de ser arrebatado em pequenino barco, rumando a regiões desconhecidas. Para onde me dirigia? Impossível responder. A meu lado, um homem silencioso sustinha o leme. E qual criança que não pode enumerar nem definir as belezas do caminho, deixava-me conduzir sem exclamações de qualquer natureza, extasiado embora com as magnificências da paisagem. Parecia-me que a embarcação seguia célere, não obstante os movimentos de ascensão.

Decorridos minutos, vi-me à frente de um porto maravilhoso, onde alguém me chamou com especial carinho:

— André!… André!…

Desembarquei com precipitação verdadeiramente infantil. Reconheceria aquela voz entre milhares. Num momento, abraçava minha mãe em transbordamentos de júbilo.

Fui conduzido, então, por ela, a prodigioso bosque, onde as flores eram dotadas de singular propriedade — a de reter a luz, revelando a festa permanente do perfume e da cor. Tapetes dourados e luminosos estendiam-se, dessa maneira, sob as grandes árvores sussurrantes ao vento. Minhas impressões de felicidade e paz eram inexcedíveis. O sonho não era propriamente qual se verifica na Terra. Eu sabia, perfeitamente, que deixara o veículo inferior no apartamento das Câmaras de Retificação, em “Nosso Lar”, e tinha absoluta consciência daquela movimentação em Plano diverso. Minhas noções de espaço e tempo eram exatas. A riqueza de emoções, por sua vez, afirmava-se cada vez mais intensa.


3 Após dirigir-me sagrados incentivos espirituais, minha mãe esclareceu bondosamente:

— Muito roguei a Jesus me permitisse a sublime satisfação de ter-te a meu lado, no teu primeiro dia de serviço útil. Como vês, meu filho, o trabalho é tônico divino para o coração. Numerosos companheiros nossos, após deixarem a Terra, demoram em atitudes contraproducentes, aguardando milagres que jamais se verificarão. Reduzem-se, desse modo, formosas capacidades a simples expressões parasitárias. Alguns se dizem desencorajados pela solidão, outros, como sucedia na Terra, declaram-se em desacordo com o meio a que foram chamados para servir ao Senhor. É indispensável, André, converter toda a oportunidade da vida em motivo de atenção a Deus. Nos Círculos Inferiores, meu filho, o prato de sopa ao faminto, o bálsamo ao leproso, o gesto de amor ao desiludido, são serviços divinos que nunca ficarão deslembrados na Casa de Nosso Pai; aqui, igualmente, o olhar de compreensão ao culpado, a promessa evangélica aos que vivem no desespero, a esperança ao aflito, constituem bênçãos de trabalho espiritual, que o Senhor observa e registra a nosso favor…

A fisionomia de minha genitora estava mais bela que nunca. Seus olhos de madona pareciam irradiar luminosidade sublime, suas mãos transmitiam-me, nos gestos de ternura, fluidos criadores de energias novas, a par de cariciosas emoções.

— O Evangelho de Jesus, meu André — continuou amorosamente —, lembra-nos que há maior alegria em dar que em receber. Aprendamos a concretizar semelhante princípio, no esforço diário a que formos conduzidos pela nossa própria felicidade. Dá sempre, filho meu. Sobretudo, jamais esqueças dar de ti mesmo, em tolerância construtiva, em amor fraternal e divina compreensão. A prática do bem exterior é um ensinamento e um apelo, para que cheguemos à prática do bem interior. Jesus deu mais de si para o engrandecimento dos homens, que todos os milionários da Terra congregados no serviço, sublime embora, da caridade material. Não te envergonhes de amparar os chaguentos e esclarecer os loucos que penetrem as Câmaras de Retificação, onde identifiquei, espiritualmente, teus serviços, à noite passada. Trabalha, meu filho, fazendo o bem. Em todas as nossas colônias espirituais, como nas esferas do globo, vivem almas inquietas, ansiosas de novidades e distração. Sempre que possas, porém, olvida o entretenimento e busca o serviço útil. Assim como eu, indigente como sou, posso ver, em espírito, teus esforços em “Nosso Lar” e seguir as mágoas de teu pai nas zonas umbralinas, Deus nos vê e acompanha a todos, desde o mais lúcido embaixador de sua bondade, aos últimos seres da Criação, muito abaixo dos vermes da Terra.


4 Minha mãe fez uma pausa, que desejei aproveitar para dizer alguma coisa, mas não pude. Lágrimas de emoção embargavam-me a voz. Ela endereçou-me carinhoso olhar, compreendendo a situação e continuou:

— Conhecemos, aqui, na maioria das colônias espirituais, a remuneração de serviço do bônus-hora. Nossa base de compensação une dois fatores essenciais. O bônus representa a possibilidade de receber alguma coisa de nossos irmãos em luta, ou de remunerar alguém que se encontre em nossas realizações; mas o critério quanto ao valor da hora pertence exclusivamente a Deus. Na bonificação exterior pode haver muitos erros de nossa personalidade falível, considerando nossa posição de criaturas em labores de evolução, como acontece na Terra; mas, no concernente ao conteúdo espiritual da hora, há correspondência direta entre o Servidor e as Forças Divinas da Criação. É por isso, André, que nossas atividades experimentais, no progresso comum, a partir da Esfera carnal, sofrem contínuas modificações todos os dias. Tabelas, quadros, pagamentos, são modalidades de experimentação dos administradores, a que o Senhor concedeu a oportunidade de cooperar nas Obras Divinas da Vida, assim como concede à criatura o privilégio de ser pai ou mãe, por algum tempo, na Terra e noutros mundos. Todo administrador sincero é cioso dos serviços que lhe competem; todo pai consciente está cheio de amor desvelado. Deus também, meu filho, é Administrador vigilante e Pai devotadíssimo. A ninguém esquece e reserva-se o direito de entender-se com o trabalhador, quanto ao verdadeiro proveito no tempo de serviço. Toda compensação exterior afeta a personalidade em experiência; mas, todo valor de tempo interessa à personalidade eterna, aquela que permanecerá sempre em nossos Círculos de vida, em marcha para a glória de Deus. É por essa razão que o Altíssimo concede sabedoria ao que gasta tempo em aprender e dá mais vida e mais alegria aos que sabem renunciar!…


5 Minha mãe calou-se enquanto eu enxugava os olhos. Foi então que ela me tomou nos braços, acariciando-me desveladamente. Qual o menino que adormece após a lição, perdi a consciência de mim mesmo, para despertar mais tarde nas Câmaras de Retificação, experimentando vigorosas sensações de alegria.


.André Luiz


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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