Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Momentos de ouro — Autores diversos


13


Lenda simbólica

  1 Uma história da vida, em moldura de lenda,

  O estudo sobre a fé aqui se recomenda.


  2 Dizem que num relvado uma lagarta nobre

  Jamais acreditava em outra vida.

  Afirmava que o nada tudo encobre,

  Que a morte tudo leva de vencida.

  Por isso, certa feita,

  Intérprete fiel da palavra escorreita,

  Foi instada a falar em sentido direto

  À grande multidão de lagartas reunidas,

  Sobre a força da morte,

  A rainha das forças desmedidas,

  Com que as prende aos casulos,

  Semelhantes a esquifes

  Ou a cárceres nulos

  Nos quais se lhes transvia a mente em abandono…


  3 O que seria a morte? Um simples sono,

  A cinza, o esquecimento, o fim de tudo?


  4 Após ouvir-lhes as indagações,

  A lagarta oradora,

  Fazendo os gestos de quem se servia

  Do mais formoso dos sermões,

  Falou em alta voz, com ardente euforia:


  5 — Companheiras irmãs!

  Não cultiveis ideias vãs,

  A morte é pó e cinza, treva e nada,

  Não existe outra vida…

  Embora quando a fé mais pura nos convida

  A meditar em Deus,

  A razão permanece ao lado dos ateus.


  6 Tenho buscado, a fundo,

  Tudo quanto se fala em morte sobre o mundo

  E a verdade, em que tudo se descerra,

  Diz que a morte aniquila

  Tudo o que vive sobre a Terra…


  7 A vida toda, em si, é uma trama nefasta;

  Uma lagarta surge,

  Luta, sofre e se arrasta,

  E encontra, mais além, a sombra e a terra fria…

  A morte nos destrói, dia por dia,

  Não guardeis ilusões, nem retenhais quimeras…

  Isto foi sempre assim, desde o berço das eras.


  8 Lagartas! Somos lagartas simplesmente

  Que a morte destruirá, chegando irreverente…

  Outra vida não há! A fé sempre resulta

  Em cinzas da mentira que se oculta,

  A vida é apenas hoje, nada mais…

  Ai de nós!… ai de nós!…

  E a culta expositora repetia

  Erguendo, sempre mais, o tom de voz:

  — Somos simples mortais!…


  9 Nisso, ela desmaiou diante da assembleia,

  Fenecera-lhe a voz, finara-se-lhe a ideia,

  E a lagarta imponente

  Transformou-se, de todo, quase que de repente

  Num casulo pendente

  Da folha em que falava…

  Toda a comunidade boquiaberta

  Seguia aquela morte inesperada,

  De ânimo firme e atento,

  Esperando que a noite, a chuva e o vento

  Fizessem do casulo

  Um dedal de poeira, cinza e nada.


  10 Mas, depois de alguns dias

  De discussões e fantasias,

  Do casulo esquisito e ressecado

  Surgiu um novo ser, maravilhoso e alado.

  A lagarta oradora

  Passara por ação renovadora;

  Era agora uma grande borboleta

  De asas amplas, em linda cor violeta,

  A voar sobre as flores nas ramadas…


  11 A ex-lagarta,

  Culta e materialista,

  Sem querer, transformara-se… E foi vista

  Pelas amigas deslumbradas

  Na condição de um ser de expressão bela e fina…

  Parecia uma leve bailarina

  Dançando ao céu azul, sob luzes douradas.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir