Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Maria Dolores — A própria


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A mensagem do Pântano

  1 Estaquei para ver, à margem do caminho,

  O pântano esquecido,

  Que ali me recordava um mendigo tristonho,

  Paralisado à força, entre a penúria e o sonho.


  2 Aqui e ali, a relva florescente,

  Além, jequitibás de braços estendidos

  Para as aves em festa…


  3 Não longe, começava o mundo da floresta.


  4 Fitando a água parada,

  Ampliando no chão a cratera barrenta

  Ou a ferida sangrenta,

  A deprimir a estrada,

  Indagava de mim: — “Por que haveria,

  Um quadro assim na gleba desolada,

  Em meio à tanta terra, esbanjando beleza,

  Um pedaço de dor e de agonia,

  Humilhando o esplendor da natureza?”


  5 Foi quando o charco, então, me respondeu:

  — “Ouve-me, coração! Houve tempo em que eu

  Também, fui uma parte do jardim,

  Que encontras neste bosque,

  Um refúgio de paz, parecendo sem fim…


   6 Mas aquele a quem Deus entregou este campo

  Para ajudar, criar, erguer e produzir,

  Ante a preparação do futuro melhor,

  Nunca me viu chorando, em derredor

  Da mata que trabalha em favor do porvir;

  Talvez por distração ou por zelo no ganho,

  Não pensa que eu exista em suplício tamanho…


   7 Na posição mais baixa em que vim a nascer,

  Tive de resguardar na intimidade

  Enxurrada e detrito

  Como quem sonha e chora em pesado conflito;

  Moscas depositaram vermes em meu rosto,

  Tornei-me, assim, um vaso descomposto,

  Um recanto enfermiço;

  Não encontro ninguém que me estenda socorro,

  Para que eu também tenha um ponto de serviço.

  Deus que não desampara cousa alguma

  Deu-me algum verde … O verde que me alcança,

  A fim de que eu não perca o resto da esperança.


   8 Para que o homem note a penúria em que vivo,

  Deu-me plantas que aguentam minha dor,

  Que, às vezes, me recobrem de perfume,

  Em camadas de flor,

  E ajudando-me em tudo,

  Manda que a vida espalhe em meus barrancos

  Lençóis e mais lençóis de lírios brancos,

  Como a dizer aos homens que eu também,

  Quero aprender pureza e praticar o bem.


   9 Escuta-me! Entretanto,

  Muito de raro em raro,

  Passa alguém por aqui a registrar-me o pranto

  De pleno desamparo,

  E muita gente crê

  Que o Céu me fez por terra envilecida,

  A fim de envenenar a grandeza da vida.


  10 Onde está quem me possa libertar

  Das algemas de lama,

  Dos vermes que me empestam todo o ar,

  Da morte que me arrasa,

  Doando-me, por fim,

  A minha condição de solo ou de jardim,

  Capaz de ser o enfeite o brilho de uma casa?”


  11 Depois de ouvir o pântano, pensei:

  Quantos irmãos fora da lei,

  Quanta gente sem paz a que se arrime,

  Entregue à ignorância e à dor, à treva e ao crime,

  Por falta de atenção!…

  Então, pedi a Deus nos dê mais união,

  Mais trabalho e mais fé,

  Mais solidariedade e mais suor,

  Paz e compreensão,

  A fim de cultivar, no próprio coração,

  A bênção de servir na seara do amor!


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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