Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Esperança e luz — Autores diversos


14


Rogativa

  1 No Golfo Pérsico é noite…

  Revejo a nuvem da guerra,

  Pairando, acima da Terra,

  A espalhar-se na amplidão…


  2 No bojo dos grandes barcos,

  Em mesas enfileiradas,

  Ouço frases cochichadas

  Exprimindo inquietação.


  3 Nos guerreiros veteranos,

  Há silêncio, não há voz…


  4 E vendo luz ao meu lado

  Entro na bênção da prece,

  Pedindo a Deus,

  Fortaleça a todos nós.


  5 Fitando o Alto, eis que imploro:

  “Ah! meu Pai, por que, meu Deus,

  Por que deste tanto ódio,

  Aos teus filhos e irmãos meus?”


  6 Sem que ninguém saiba de onde,

  A voz dos Céus nos responde:

  “A todos damos amor!…”


  7 Invoco então Jesus-Cristo,

  Amado Mestre e Senhor:

  “Jesus, ante o teu Natal,

  Livra-nos sempre do mal.”

  8 E o Mestre disse em voz alta:

  “Para o Bem nada nos falta

  Amparai-vos uns aos outros,

  Amai-vos qual vos amei.”


  9 Sei que o conflito iminente

  Pode surgir de repente…


  10 De espírito transformado

  Operando mentalmente

  Volto ao meu próprio passado…

  Vejo a Guerra das Cruzadas,

  Homens munidos de espadas

  Montam soberbos corcéis;

  Crianças abandonadas

  Procuram mães desoladas,

  Sofrendo golpes cruéis!…

  11 Eis-me também nas Cruzadas…

  A guerra é longa e sangrenta,

  O Homem não se contenta,

  Crê no ódio, mais e mais;

  Nada suprime a matança,

  Morre a paz sem esperança,

  Gerando embates fatais…


  A batalha continua…


  12 Volto a Jesus e pergunto:

  “Como agir? Dize Senhor,

  Perante o desequilíbrio

  De nossos irmãos do mundo,

  Rogamos que nos definas

  Com Tuas lições Divinas:

  Que fazer, perante a Lei?”

  13 Fala, entretanto, o Senhor,

  Quando a vida se desmanda

  Precisamos cultivar mais trabalho,

  Mais perdão e mais amor.


  14 A guerra prossegue intensa,

  Os homens nos lembram feras

  No caminho de outras eras

  Sem Luz, sem Paz e sem Crença…

  15 E em vilarejo distante, embora vitorioso,

  O Rei Luiz cai exangue

  E morre em poeira e sangue

  Ferindo o mundo cristão!…


  16 Tantas lembranças amargas!…

  Afasto-me do terror,

  Sempre o ódio em tantas cenas!…

  Para ilações mais serenas

  Em torno do hórrido evento

  Coração em sofrimento

  Mergulhado em grande dor!…


  17 Quero pensar livremente,

  Não suporto a grande luta;

  Retiro-me quando escuto

  Alguém a dizer-me, claro:

  “Em Deus não há desamparo!…”

  18 O mensageiro da Luz

  Pedia-me paz e fé,

  Na bênção do Herói da Cruz.

  Consciente, ansioso e aflito,

  Procuro guardar-me em prece,

  Na paz de que necessito;

  Vejo em torno a Natureza,

  Tudo é Esperança e Beleza!…


  19 O vento brinca na areia…

  Noto onde o solo se alteia,

  Terra verde e céu de anil!…

  A dor quase me enlouquece,

  Mas em paz reflito em prece:

  — Deus nos preserve o Brasil.


.Castro Alves



(Poema recebido em reunião pública e comemorativa do Centro Espírita União, em São Paulo, na noite de 17 de Outubro de 1990)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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