Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Chico Xavier pede licença — Autores diversos — F. C. Xavier / J. Herculano Pires


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Agradecer para servir

.Maria Dolores


  1 Agradece, alma querida e boa,

  Ao Doador das Luzes e dos Bens

  Os dotes naturais que te amparam a vida

  E as concessões que tens.


  2 Observa a palavra

  Em que a força do verbo se te fez,

  Quando existe no mundo tanta gente

  Em penosa mudez.


  3 Contempla as próprias mãos que podem trabalhar

  Em toda atividade nobre e amiga,

  Quando se enxerga, em toda parte,

  Tanta mão que mendiga.


  4 Reflete nos teus olhos,

  Dos quais a luz é a doce companheira,

  Quando tantos irmãos vemos na Terra

  Suportando a cegueira.


  5 Toca o cérebro claro

  Em que o discernimento se te apura

  E lembra a multidão dos companheiros

  Nos desvãos da loucura.


  6 Certamente, alma boa,

  Deus, o Dispensador dos Recursos Supremos,

  Não tem culpa do pranto que há na estrada

  Que nós mesmos fazemos.


  7 Saibamos, entretanto, agradecer

  Os tesouros e dons de que nos faz dispor,

  A fim de que saibamos levantar

  A grandeza da Vida e a redenção do Amor.


Poesia do mais viver


.Irmão Saulo


Enquanto os poetas da Terra se entregam à procura de originalidades técnicas, de formas novas de expressão poética, os do Além utilizam a poesia na sua essência eterna, como meio de comunicação no plano das almas. A poesia terrena busca a perfeição formal, os efeitos sensoriais. A poesia celeste busca a orientação, o esclarecimento, a elevação das criaturas. Todas as formas poéticas são igualmente válidas. Castro Alves se manifesta em versos condoreiros, Cornélio Pires em trovas e sonetos caipiras, Cyro Costa em alexandrinos retumbantes, Oswald de Andrade e Mário de Andrade em versos livres, cada qual no seu estilo pessoal. Mas o tema de todos é o Espírito e sua ascensão através da existência, nos rumos da transcendência.

Os homens burilam a forma, aprimoram a expressão, renovam as posições estéticas. É a sua função no plano sensorial. Os Espíritos se interessam pela comunicação espiritual, pelo despertar das consciências, pela demonstração da sobrevivência. É com estes objetivos que Maria Dolores continua poetando após a morte. Seus poemas mantêm uma constante formal já bastante conhecida no meio espírita, e a constante substancial varia nas nuanças de uma temática permanente, que é a da mensagem moral. O que interessa a ela, como a todos os poetas do Além, não é a poesia do viver, a captação estética do cotidiano, mas a poesia do mais viver, o chamado a uma compreensão mais profunda do sentido da vida.

Ante a revolta comum do ser existencial, sempre insatisfeito com as condições e limitações do seu viver diário. Maria Dolores levanta o problema da gratidão do ser transcendente ao “Doador das Luzes e dos Bens” que todos recebemos e usufruímos na existência. Há em nós, como explica “O Livro dos Espíritos”, o ser do corpo e o ser da alma. Aquele vive e este último existe. Viver é condicionar-se à forma biológica terrena, existir é transcender, como o demonstram os modernos princípios existenciais. Para ativar a transcendência, Maria Dolores estabelece o confronto das situações de desajuste com as situações normais, apelando ao nosso entendimento e convocando-nos “à grandeza da Vida e à redenção do Amor”.

Os “tesouros de dons” que possuímos, que nos foram concedidos pelo Doador, e que utilizamos com displicência, senão com desprezo, devem despertar-nos para a compreensão da “grandeza da Vida”. As deficiências que afetam milhões de criaturas (nossos semelhantes) ao nosso redor e no mundo, e das quais fomos preservados, devem acordar em nós os sentimentos de humildade e levar-nos “à redenção do Amor”. Essa redenção não é apenas uma figura poética, uma simples forma de expressão. É a libertação do egoísmo (do amor fechado em nós e por nós, com exclusivismo) que nos redimirá da ingratidão para com o Doador e nos iniciará na transcendência horizontal do amor ao próximo da qual facilmente nos ergueremos à transcendência vertical do amor a Deus. Essa a técnica do “mais viver”, do viver acima da vida comum, que o seu poema nos oferece na forma de uma canção.


Cyro Costa errou?

Um verso do soneto de Cyro Costa, recebido por Chico Xavier no “Pinga Fogo” do Canal 4, correu mundo completamente desfigurado. Jornais e revistas de todo o Brasil o reproduziram e continuam a reproduzir de maneira defeituosa. Até mesmo os órgãos oficiais, da Câmara Federal, da Assembleia Estadual e das Câmaras Municipais, em cujas tribunas o soneto foi lido, não escaparam a esse erro.

O verso é o terceiro do primeiro quarteto do alexandrino intitulado “Segundo Milênio”. No original psicografado por Chico Xavier ele aparece com a perfeição que caracteriza as produções do poeta : “Guerra e sonhos de paz estadeiam conflito”. Mas a divulgação foi feita de duas maneiras errôneas: 1º) “Guerra e sonhos de paz estardeia conflito”; 2º) “Guerra e sonhos de paz estardeiam em conflito”. Na primeira dessas formas há o erro gráfico de um “r” acrescentado à forma verbal “estadeiam” e o erro de concordância do verbo no singular; na segunda forma há também dois erros: o acréscimo indevido do “r” e o acréscimo do “em”, este resultando na quebra da métrica. Cyro Costa não errou. Ele sabia que não existe o verbo estardear, mas apenas o verbo estadear (sem “r” no meio) e que significa: alardear um estado, ostentar uma posição.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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