Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


16n

Cornélio Pires


1

VELHO JOÃO

  1 Velho João, agonizas triste e pobre,

  Sem que o mundo, sequer, a mão te estenda;

  Ninguém te oferta um caldo por merenda,

  Nem um trapo de pano que lhe sobre…


  2 Ah! ninguém te agradece ao peito nobre

  O cansaço na roça e na moenda;

  Morres, lembrando as pompas da fazenda,

  No seboso molambo que te encobre.


  3 Percebes, pelos vãos da própria furna,

  Flores aos borbotões, na paz noturna,

  E abandonas o corpo, a fim de vê-las…


  4 Fitas, em prece, a noite calma e santa

  E sobes, velho João, como quem canta

  Nos milharais do Céu, plantando estrelas! n


2

MÃE BALBINA

  1 Espancaram-te o rosto, Mãe Balbina.

  Velha, furtaste um pão jogado ao solo,

  Ama de tanta boca pequenina

  Que afagavas, cantando, no teu colo.


  2 Ninguém te viu, anêmica e franzina,

  Com o filho da patroa a tiracolo, n

  E a dor de mãe solteira, inda menina,

  No suor da coivara e do monjolo.


  3 Roubaste um pão apenas, Mãe querida,

  Tu que foste roubada em toda a vida

  Por tantos filhos que te abandonaram!… n


  4 Mas Deus guarda-te, além, por luz e enfeite,

  O tesouro de sangue, pranto e leite

  Das pérolas de amor que te furtaram!


3

MARIA DOIDA

  1 “Doida! Maria Doida!” A meninada

  Persegue a pobre louca em longas filas.

  Cerrando as mãos nervosas e intranquilas,

  Maria corre em fúria desgrenhada.


  2 Ah! minha irmã, que em sombra te aniquilas;

  Desditosa, sozinha, desprezada,

  Bebes, com sede e fome, na calçada,

  O pranto que te verte das pupilas!…


  3 Mas, à noite, Maria, enquanto dormes,

  Revês, de novo, as árvores enormes

  Do teu solar de luxo noutras eras…


  4 E agradeces, na palha seca e fria,

  A rude provação de cada dia,

  Como preço do júbilo que esperas!


4

NHÁ CHICA

  1 Dos olhos de Nhá Chica o pranto rola…

  Não mais levanta a voz e o rosto ossudo.

  Oitenta anos vivera… E, ao fim de tudo,

  A palhoça vazia, o pão de esmola…


  2 A professora anciã relembra a escola…

  Pensa ver, entre o catre e o chão desnudo,

  A mesa, o livro, a lousa, o giz do estudo n

  E os meninos rixando junto à bola. n


  3 Pobre Nhá Chica em lágrimas banhada 51 n

  Morre, esquecida e só, assim sem nada,

  Na tristura das últimas lembranças…


  4 Mas acorda em florida caravela 54

  Num mar azul… E vê-se, moça e bela,

  Carregada nos braços das crianças!…


5

HISTÓRIA DE DONA AMÉLIA

  1 Conheci Dona Amélia na fazenda

  — Dona Amélia Maria Liberata —,

  Linda e rica mulher, mas rude e ingrata,

  Sempre altiva, no estrado de ouro e renda.


  2 Deixava o pão mofando preso à lata

  E gritava: “ninguém me desatenda”.

  Procurava conflitos de encomenda

  Para zurzir os servos na chibata…


  3 Mais tarde veio a morte… A nobre dama

  Padecia o remorso como a chama

  Quando o fogo se apega à carne nua.


  4 O tempo voa… E agora, reencarnada,

  Vejo-a sozinha, triste e abandonada,

  Esmolando socorro em cada rua.


6

SINHÁ TEODORA

  1 Ah! minha outra mãe, Sinhá Teodora, n

  Ninguém te enxuga as lágrimas do rosto,

  Mas prossegues gemendo a contragosto,

  Arrimada à muleta que te escora…


  2 Sofreste, sorridente, vida afora;

  Cantarolavas, tonta de desgosto…

  Para onde te encaminhas, ao sol-posto,

  A tropeçar, cansada e triste, agora?


  3 Que demandas com tantas agonias?

  Ergues ao céu as mãos magras e frias…

  Há luz que se derrama de alta esfera…


  4 Choras… No entanto, a paz do firmamento

  Diz-me que vais, assim, coxeando ao vento,

  Para os braços do Cristo que te espera.


7

“TI” PEDRO

  1 O mendigo que chora, treme e passa

  Fora cultivador de terra alheia.

  Em dado instante, hesita, cambaleia…

  Há quem o julgue cheio de cachaça.


  2 “Ti” Pedro cai e é preso em plena praça

  E, morrendo, nas lajes da cadeia,

  Revê toda a fortuna a que se enleia:

  Cinco tostões num trapo de alcobaça.


  3 De Espírito liberto, estrada afora,

  Ouve música ao longe… É quase aurora…

  “Ti” Pedro sobe leve como o vento;


  4 E crê que o próprio Deus lhe acalma as dores,

  Nas estrelas que pendem como flores

  No pau d’arco de luz do firmamento. n


8

O D. JUAN

  1 E assim viveu Cantídio Maldonado,

  Deitando anedotário e latinório,

  Bela figura, qual D. Juan Tenório,

  Lampeiro, bonitão e remoçado.


  2 Aqui e ali, promessas de noivado,

  Meninas lastimando amor inglório,

  Lares desfeitos, casos de cartório

  E crimes, vários crimes de contado. n


  3 Contudo, a morte veio… O pobre amigo

  Acumulava em lágrimas consigo

  Dor e remorso em trágico binômio…


  4 Corre o tempo… Hoje encontro Maldonado,

  Andrajoso, esquecido e reencarnado,

  A rir e soluçar num manicômio.


CORNÉLIO PIRES — Além de poeta, contista, jornalista, humorista e conferencista, era Cornélio Pires devotado pesquisador do nosso folclore. “Seja bom” — recomendou-lhe, certa vez, Amadeu Amaral. E Cornélio Pires, ao fazer-se tarefeiro da Doutrina Espírita, não foi apenas um bom, mas verdadeiro herói da bondade permanente, a benefício dos semelhantes. Pouco antes de desencarnar, fundou em Tietê, SP, a “Granja de Jesus”, entidade de amparo ao menor abandonada. Escreveu para inúmeros jornais e revistas, tendo iniciado a sua vida literária em O Malho, do Rio. Alguns dos seus livros continuam a ter numerosas e sucessivas reedições. “Sua obra” — di-lo Joffre Martins Veiga — “é eminentemente popular e de cunho essencialmente brasileiro.” (Tietê, Est. de S. Paulo, 13 de Julho de 1884 — S. Paulo, Estado de S. Paulo, em 17 de Fevereiro de 1958.)

BIBLIOGRAFIA: Musa Caipira; O Monturo; Versos; Coisas d’Outro Mundo; Onde estás, ó morte?; etc.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Excelente imagem: “Velho João, como quem canta nos milharais do céu, plantando estrelas.”

[3] Leia-se com o, numa sílaba. C. Pires, com frequência, servia-se da ectlipse. Cf. “O Enterro” (ap. J. M. Veiga, Antol. Caipira, pág. 139) 11º verso: “e com ele se foi a doce paz da roça.”; “À Quelque Chose”, 11º verso: “com o dia de amanhã que é sempre o mesmo” (apud Op. cit., pág. 111).

[4] A respeito do metro deste verso, em que a 6ª sílaba tônica recai no que, cf. o 1º verso do soneto “Solitário”: “Como um fantasma que se refugia”; o 10º verso de “O Lamento das Coisas”: “Da transcendência que se não realiza…”, etc.

[5] Atente-se na enumeração.

[6] As rimas em “ola” e “olo” eram muito usadas pelo artista de Musa Caipira. Cf. “Casa Rústica” (Op. cit., pág. 97), 1º terceto; “O Sol e o Cabo” (id., pág. 99), última estrofe; “Desencanto” (id., pág. 113) em todas as quadras; “Peripécias de Viagem” (id. pág. 117), último terceto.

[7] 51-54. Observem-se os “enjambements”.

[8] Digna de observação é a constante repetição das expressões “Nhá”, “Sinhá” e outras que tais, tanto na poesia de além-túmulo quanto na que ficou esparsa em seus livros.

“Vai-se levar à vila o corpo de Nhá Cota, / balouçando na rede a uma vara amarrada…” — eis os dois primeiros versos do soneto “O Enterro”, que, misturado aos de “Nhá Chica”, “Sinhá Teodora” ou qualquer outro soneto com que agora comparece o poeta, dificilmente distinguiríamos dos demais.

[9] Cf. a nota 14 deste capítulo [A nota diz o seguinte: — Excelente imagem: “Velho João, como quem canta nos milharais do céu, plantando estrelas.”]

[10] Mesarquia: “E crimes, vários crimes de contado.” — Cf. 2ª nota do cap. 7 da 1ª Parte.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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