Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


15n

Artur de Sales


1

HISTÓRIA DO AMOR

  1 Pede a ostra colada à pedra em que se escalva:

  — “Ajuda-me, Senhor! Sou larva triste e feia!…”

  Nisso, o mergulhador pisa o lençol de areia,

  Qual fulmíneo titã, no abismo verde-malva.


  2 Pensa, encantada, a pobre: — “Eis alguém que me salva…”

  O homem, contudo, ataca e a mísera baqueia.

  Depois, sofre, na tona, o facão que a golpeia,

  Fere, insulta, escarnece e lanha, valva em valva.


  3 Mas, em vez de revolta, a vítima indefesa

  Oferta-lhe, ao cair, por troféu de beleza,

  A pérola que brilha entre os arpões e os rascos… n


  4 Essa é a história do amor que se alteia, sublime;

  Inda mesmo a sangrar, sob a injúria do crime,

  Beija e enriquece as mãos dos seus próprios carrascos.


2

HISTÓRIA DO DESTINO

  1 Rogava o barro a sós, preso a lodosa charpa:

  — “Liberta-me, Senhor, do lixo que me escorna!

  Ai de mim que sou lama envilecida e morna!…”

  Veio a chuva e, oh! beleza! o brejo vibra e zarpa.


  2 A água que dormia em túmida madorna

  Põe-se, turva, a correr no solo que se escarpa,

  Atormenta-se, luta e vai, de farpa em farpa,

  Como pranto de dor que, súbito, se entorna…


  3 Agita-se e obedece, escrava à gleba obscura,

  Beija os rijos punhais da rocha em que se apura,

  Abraça as provações e canta a bendize-las!


  4 Depois, é fonte ao mar, qual poema divino!…

  Alma, a história do charco é a história do destino

  Que nos arrasta, além para além das estrelas… n


ARTUR Gonçalves DE SALES — Depois de ter assentado praça no 9° Batalhão de Infantaria e tentado matricular-se na Escola Militar, no Rio de Janeiro, Artur de Sales voltou a Salvador, onde, em 1905, recebeu o diploma de aluno-mestre, da Escola Normal. Exerceu o magistério primário “em aprendizados agrícolas”. Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, aí ocupando a cadeira n° 3. A obra poética de A. de Sales, a princípio simbolista, passou depois a ser concebida parnasianamente. Suas poesias, em geral abrangendo temas populares, revelam-lhe o grande interesse pelas coisas do mar. Considerado “admirável plástico do verso” por Jackson de Figueiredo, foi ainda Artur de Sales, na expressão de Eugênio Gomes, um “ébrio de Shakespeare”, traduzindo-lhe, em versos alexandrinos, a peça Macbeth. (Cais Dourado, Salvador, Bahia, 7 de Março de 1879 — Salvador, 27 de Junho de 1952.)

BIBLIOGRAFIA: Poesias (1901-1915); Poemas Regionais; etc.


Nota. Para que possamos apreciar o gosto do poeta para as rimas raras e os versos alexandrinos, vamos transcrever-lhe apenas duas estâncias do poema “A Lagoa” (apud Pan., V, págs. 55-56):


“Tramas de ouro de sol, quase apagada frágua

Veste a lagoa. Um mundo azoinante de insetos

Zune e zumbe, cruzando-a. Os caniços inquietos

Vão e vêm, alongando esguias sombras na água.


O silêncio, magoando o ar sonolento e morno,

Espalha em tudo o alor das cousas fugidias;

A vez e vez, rompendo-o, asas passam, tardias.

Esmaece, agoniza a paisagem de em torno.”


Observe-se, ainda, que o esquema rimático é idêntico no soneto de hoje e no famoso poema de suas Poesias.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] rasco (de rascar, raspar, desbastar): “garfo de ferro, na extremidade de uma vara, para a apanha do mexilhão.”


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir