Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


13n

Artur Ragazzi


1

SONETO

  1 Era a última hora para a cabeça estática

  Que pensava, apesar de tudo.

  O corpo anestesiado no suor denso e álgido

  Não movia sequer leve ponta do dedo.


  2 Os olhos haviam parado dentro das órbitas,

  Mas no imóvel espelho das pupilas

  Aumentara a visão com estranha potência,

  Sob a ação de outros raios.


  3 Teto, paredes, portas desapareceram como por encanto n

  E comecei a ver, pela gaze das lágrimas,

  Antigas afeições que imaginava mortas…


  4 Velhos amigos meus vinham, prestos, do Além, a enxugarem-me o pranto.

  Encontrara o outro mundo! E quis gritar, eufórico,

  Mas a garganta seca era apenas silêncio. n


2

AO VIAJOR DA VIDA

  1 Foge à ilusão da forma que te ilude

  Entre sombras e lápides terrenas.

  Surpreenderás, na carne, sonho apenas n

  De infância, mocidade e senectude…


  2 Ri-se o berço… Depois, a juventude

  É ligeira estação de horas serenas…

  Depois, ainda, as lágrimas e as penas

  Da velhice a chorar o inverno rude…


  3 Que a aspereza da estrada pouco importe…

  Segue, de coração piedoso e forte,

  Plantando o amor na Terra vasta e rica!


  4 Marca a esparzir o bem de escala a escala!

  O bem — o dom de paz que te assinala;

  Somente o bem é a luz de amor que fica.


ARTUR RAGAZZI — Poeta largamente relacionado e estimado nos ambientes literários é sociais de Belo Horizonte. Italiano de nascimento, veio com os pais, ainda menino, para o Brasil, fixando-se em Ouro Preto. Em 1897, inaugurada a nova capital mineira, aí passou a residir até ao fim de sua existência. Foi uma das principais expressões do alto comércio de Belo Horizonte e elemento de valor nos círculos literários que nessa cidade se formaram à sombra de Alphonsus de Guimaraens e de Mendes de Oliveira. “Poeta de largos recursos,” — di-lo a Folha de Minas, em 5 de Novembro de 1948 — “era também Artur Ragazzi uma alma pura e sensível a todas as manifestações do calor humano.” Em vários jornais e revistas mineiros e cariocas saíram estampadas as suas produções líricas, “donde rescendem impulsos sinceros de uma inspiração privilegiada, a par de notável poder de expressão verbal”. (Veneza, Itália, 31 de Julho de 1879 — Belo Horizonte, Minas Gerais, 4 de Novembro de 1948.)

BIBLIOGRAFIA: Cavaleiro Andante; Coivara Acesa; algumas inéditas.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Observe-se a enumeração.

[3] Neste soneto assaz original, em que se associam versos alexandrinos, hexassílabos e hipérmetros de grande beleza, o poeta descreve-nos o momento final da vida na carne, quando no “imóvel espelho das pupilas” já não mais vislumbrava as paredes, o teto, as portas, mas apenas os seus velhos amigos desencarnados.

[4] Leia-se sur-preen-de-rás, com sinérese.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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