Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


11n

Dario Veloso


1

DEUS

  1 Passa no oceano azul a resplendente frota,

  Brilham flâmeos pendões, de fragata em fragata…

  Relampeia o esplendor… É a luz que se desata

  Do coração da vida em clâmide remota.


  2 Vejo a ronda dos sóis por divina cascata,

  Da Terra a que me prendo, — humilhada galeota.

  Cada estrela é canção, que a beleza pilota,

  Nos tênues brocatéis de púrpura e de prata.


  3 Ah! estranho Universo!… Ah! glória que me esmagas!… n

  Constelações, dizei!… Quem vos fez como vagas n

  De pétalas, bailando aos sublimes falernos?


  4 Uma sílaba só freme, de mundo em mundo:

  Deus!… — o doce mistério altívolo e profundo!…

  Deus!… — o infinito Amor dos caminhos eternos!… n


2

HOMEM

  1 Argonauta da luz que nasceste nas trevas,

  Por térmita perdido em malocas bizarras,

  Dormiste com leões de sinistras bocarras

  E, símio, atravessaste as solides grandevas.


  2 Preso aos totens e atado à inspiração dos devas.

  Vivias de arco e flecha ao clangor de fanfarras.

  Ai! a herança da guerra a que ainda te agarras,

  Os impulsos do abismo e as cóleras longevas!


  3 Hoje, razão que brilha e amor que desabrocha,

  Prometeu a chorar no coração da rocha, n

  Circulado de sóis e entre as sombras imerso!


  4 Homem! Anjo nascente e animal inextinto,

  Serás, após vencer as injúrias do instinto,

  A obra prima de Deus no esplendor do Universo! n


DARIO Persiano de Castro VELOSO — Poeta, orador, romancista, contista, historiador, jornalista. Fez o curso primário no Liceu de S. Cristóvão do Rio e em 1885 fixou residência na capital do Paraná, onde exerceu vários cargos públicos. Professor do Ginásio Paranaense e Escola Normal de Curitiba, D. Veloso angariou grande prestígio como verdadeiro “mestre da mocidade”. Altamente espiritualista, foi um apaixonado prosélito das doutrinas ocultistas e herméticas. Helenófilo, chegou a criar em Curitiba um Instituto Neopitagórico, para cuja sede construiu o famoso “Templo das Musas”. Fundou várias revistas simbolistas, dentre as quais se destacou O Cenáculo. Sua produção é vasta em todos os gêneros. Foi sócio fundador do Centro de Letras do Paraná e criou a cadeira n° 9 da Academia Paranaense de Letras. (S. Cristóvão, Rio de Janeiro, Gb, 26 de Novembro de 1869 — Curitiba, Paraná, 28 de Setembro de 1937.)

BIBLIOGRAFIA: Efêmeras; Hélicon; Cinerário; Esotéricas; etc.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] Atente-se na apóstrofe.

[3] Observe-se o “enjambement”: “…Quem vos fez como vagas/ De pétalas,…” — que sugere, de imediato, o bailar das ondas de pétalas aos sublimes falernos.

[4] Eis aí um dos mais excelentes exemplos de anáfora.

[5] A título de curiosidade, cf. Dario Veloso, Cinerário, Curitiba, 1929, págs. 22, 23 e 24, em que o poeta dedicou a Prometheo três sonetos, sendo o primeiro, o Titan, o segundo, o Herói, e o terceiro, o Deos.

[6] Observem-se a musicalidade dos versos, a riqueza das rimas e a excelência de algumas antíteses. Certamente interessado em sua identificação, o poeta utilizou-se, no primeiro verso do primeiro quarteto, do vocábulo “Argonauta”, que intitula um belíssimo poema que ele, quando encarnado, dedicara a João Itiberê da Cunha. (Cf. A. Muricy, Pan. Mov. Simb. Bras., I, pág. 343). Compare ainda o leitor este mesmo poema com o primeiro soneto mediúnico — “Deus”, e encontrará, novos pontos de identificação.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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