Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 3ª Parte


2n

Auta de Souza


1

ESTRELAS

  1 Beija essas mãos que alentas e que afagas,

  Quando és bondade apenas, branda e pura,

  Mãos engelhadas, mãos em miniatura,

  Mãos trêmulas, mãos tristes, mãos em chagas!…


  2 Mãos que recordam náufragos, nas vagas

  De atormentado mar, em noite escura,

  Mãos que ensinam, em preces de amargura,

  Quão pequenina a dor em que te esmagas!…


  3 Beija essas mãos cansadas, quase mortas,

  Flores de sangue e fel que reconfortas,

  A estender-lhes consolo, pão e ninho.


  4 E, quando a morte apague a luz que levas,

  Essas mãos, como estrelas sobre as trevas,

  Brilharão por degraus de teu caminho!…


2

AOS CARAVANEIROS DO BEM

  1 Caravana do amor, ditosa e bela

  — Esperança e consolo que bendigo —,

  Serve e divide o pão do excelso trigo

  De que o chão da bondade se constela!


  2 Aqui, há provação e desabrigo;

  Além, o pranto é mar que se encapela…

  Ao sol do bem a simples bagatela

  Acende a excelsa luz do Excelso Amigo…


  3 Segue e restaura a vida semimorta,

  Onde a noite da mágoa desconforta

  O coração que sangra, sofre e erra!… 25 n


  4 Inda mesmo ante o mal, na luta inglória,

  A caridade é o canto de vitória

  Do reinado do Cristo sobre a Terra!…


3

ENTREVISTA

  1 Não precisas buscá-lo no Azul pleno,

  Onde a vida imortal esplende e assume

  A estranha forma do Celeste Lume

  De que o homem percebe vago aceno. 32


  2 Desce ajudando ao chavascal terreno

  Que tragédias e lágrimas resume…

  E espalha a caridade qual perfume

  Que se evola do lodo ao céu sereno.


  3 Ante o vale da sombra imensa e fria,

  Abençoa, restaura, eleva e guia,

  Lenindo as aflições de toda a hora… 39 n


  4 E perante o suor da angústia em chaga,

  Encontrarás o Cristo que te afaga,

  Em cada coração que luta e chora!…


4

COMPAIXÃO

  1 Modera a exaltação dos teus sentidos,

  Não te faças distante ou displicente,

  Ouve as preces, as pragas e os gemidos

  Da fornalha em que clama a luta ingente.


  2 Passa e fita os olhares doloridos

  Que traduzem a dor de tanta gente,

  Qual se avistasses corações queridos

  Rogando alívio à mágoa impenitente.


  3 Serve, socorre e ampara a criatura

  Que vagueia a pedir de porta em porta,

  Revolvendo as entranhas na amargura.


  4 Por ti mesmo, sê brando sem disfarce.

  Liberta a luz do amor que te conforta

  E anseia por sair a derramar-se…


5

TRABALHA AGORA

  1 Pondera o tempo — mar em que navegas,

  Invisível apoio que te escora.

  Não te afundes no abismo, senda afora,

  Nem prossigas, em vão, tateando às cegas.


  2 Glórias, delitos, lágrimas, refregas,

  Tudo é feito no tempo, de hora a hora… n

  Estende o amor e a paz, semeando agora

  As riquezas do tempo que carregas!


  3 Inda que a dor te oprima e o mal te afronte,

  Vive, qual novo dia no horizonte,

  Sem que a névoa do mundo te abastarde…


  4 Hoje! Trabalha agora, em cada instante;

  Agora! trilha aberta ao sol triunfante!…

  Muitas vezes, depois é muito tarde!…


5-A

DIVIDE

  1 Não somes simplesmente os bens da vida…

  Deus reparte a bondade com grandeza.

  O próprio pão que te enriquece a mesa

  É mensagem da terra dividida.


  2 Fita a glória solar fremindo acesa,

  A fonte que ao repouso te convida

  E as flores que se entregam sem medida,

  No coração de luz da Natureza…


  3 Divide assim também do que te sobre.

  O celeiro do bem nunca está pobre,

  Inda que a singeleza nele brade.


  4 A prece, o bolo, o caldo, o leito e a veste n

  São dividendos para o Lar Celeste,

  No tesouro de amor da eternidade…


AUTA DE SOUZA — “Poetisa de grande emoção religiosa”, no dizer de Afrânio Peixoto, órfã de pai e mãe, A. de Souza, desde cedo, enfrentou o mar de provações redentoras, no qual vogou por toda a sua curta vida física. Educada no Estado de Pernambuco, amargou uma existência de acerbos sofrimentos. “Sua vida” — di-lo Hostílio Montenegro — “foi uma coroa de espinhos atada com a tuberculose.” Seu livro Horto (1899) traz um prefácio de Olavo Bilac, no qual o poeta, após dizer que o volume “vem revelar uma poetisa de raro merecimento”, faz esta ressalva: “não há nas estrofes do Horto o labor pertinaz de um artista.” “Talento e sensibilidade” — observa Domingos Carvalho da Silva (Vozes Fem. da Poesia Bras., pág. 25) — “não faltaram à triste moça tísica do Nordeste, que cometeu, todavia, o equívoco irreparável de fixar os olhos brilhantes em Lamartine, quando já brilhava a estrela de Mallarmé e Verlaine.” (Macaíba, Rio Grande do Norte, 12 de Setembro de 1876 — Natal, Rio Grande do Norte, 7 de Fevereiro de 1901.)

BIBLIOGRAFIA: Horto. A 3ª edição, Rio de Janeiro, 1936, é prefaciada por Alceu Amoroso Lima.



[1] As poesias de números ímpares foram recebidas pelo médium Francisco Cândido Xavier e as de números pares pelo médium Waldo Vieira. Dispomo-las assim, por sugestão dos Amigos Espirituais.

[2] 25-32. Ler com hiato: so/fre e/ er/ra; De/ que o/ ho/mem.

[3] 39. Leia-se to/da a/ ho/ra, em três silabas.

[4] Cf. a nota anterior (verso 39 deste capítulo).

[5] Observe-se a enumeração.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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