Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


45

Lulu Parola


CONFISSÃO

  1 Quando a cela de carne vira pó,

  A gente volta vivo para cá, n

  Lembrando com saudade de dar dó

  Essa boia daí que, aqui não há…


  2 Moqueca, caruru, mãe-benta, efó,

  Quibebe, canjiquinha, munguzá,

  Sequilhos, abará, manuê, bobó,

  Tutu, acarajé e vatapá…


  3 Vivo morto de fome por aqui!

  Para que eu não embirre igual guri,

  É preciso ter muita e muita fé…


  4 Puxa, meu pessoal! que sururu!

  Ouçam meu coração que fala nu:

  Cuidado, pois o garfo dá banzé!


TEATRO

  1 Quanto caboclo iludido

  No esforço de ovacionar!

  Quanto tempo, em vão perdido!

  Mas, amanhã, sem ruído,

  Dona Morte vai chegar!…


  2 Vejam vocês, minha gente,

  Que teatro original!

  Dentro dele quem não sente

  O poder da nossa mente,

  Nossa cultura ideal?


  3 Quanta buzina que soa!

  Quantos carros em ação! n

  Vejam só quanta pessoa,

  Gente rica e gente à-toa…

  Hoje é dia de função!


  4 Que moderna arquitetura!

  Colunatas no jardim,

  Decoração, escultura,

  E paredes com pintura

  De uma beleza sem fim!


  5 Brilha a riqueza excessiva!

  Luz solar em profusão.

  Muita música festiva,

  E criança que se esquiva

  Circulando no saguão.


  6 Mas em meio ao vozerio,

  Rápido, surge um senhor

  Em pleno palco vazio.

  Silêncio quase sombrio

  No recinto encantador.


  7 A exibição que se espera

  Afinal vai começar!

  O povo que se aglomera

  Olha o ator de cara austera,

  Ele agora vai falar!


  8 Surgirão flores e cenas?

  Arte e ciência também?

  Montagens grandes, pequenas?

  Bons episódios que apenas

  Falem da força do bem?


  9 Nada disso! Ai nossos calos!

  Escutem! Todos vão ver!

  Nem gritos e nem abalos!

  É a grande briga de galos,

  De matar ou de morrer!…


  10 Quanto caboclo iludido

  No esforço de ovacionar!

  Quanto tempo, em vão, perdido!

  Mas, amanhã, sem ruído,

  Dona Morte Vai chegar!… n


LULU PAROLA (ALOÍSIO Lopes Pereira DE CARVALHO) — Devotado jornalista, e poeta de humor fino e original. Manteve, de 1891 a 1919, uma seção diária de versos humorísticos no Jornal de Notícias, de Salvador, intitulada “Cantando e Rindo”, assinando-a Lulu Parola, pseudônimo literário com que se popularizou: Foi um dos fundadores da Academia de Letras da Bahia, ocupando a cadeira n° 2. Deputado estadual. Redator de A Tarde, de 1925 até o dia de sua desencarnação. Florêncio Santos, no seu artigo — Reminiscências da “A Tarde” — estampado no Jornal do Commercio de 28 de Outubro de 1962, assim se referiu a ele: “Homem bom e amigo leal, era Aloísio um chefe de família exemplar. Desprovido de bens materiais, foi um nababo da inteligência e do idealismo.” (Salvador, Bahia, 27 de Março de 1866 — Salvador, 2 de Fevereiro de 1942.)

BIBLIOGRAFIA: Cantando e Rindo, 1ª Série; Cantando e Rindo, 2ª Série; etc.


Nota. Apreciando o estilo do poeta baiano, recordemos a 5ª estância de “O Brasil” (ap. Aloysio de Carvalho Filho, Col. Poet. Bahianos), lançado por ele, quando no Plano Físico:


“Que casa grande e bonita!

Vocês, crescendo, verão!…

E a gente que nela habita,

Para acolher a visita,

Tem sempre aberto o portão!…”



[1] a gente. Natural ao poeta esta locução pronominal de cunho popular.

[2] Poliptoto: “Quanta… / Quantos…”


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

.

Abrir