Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


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Emílio de Menezes


RECADO

  1 A você, meu irmão, antes que parta

  Para o jardim que a escória humana aduba n

  No cultivo da terra fria e farta,

  Falo como quem sopra velha tuba.


  2 Andei fazendo prosa, verso e carta,

  Esvaziando prato, copo e cuba,

  Mas a morte triunfal tudo coarta

  No tiro certo com que nos derruba.


  3 De olhar em outro rumo, inda poeto

  Atendendo a alegria do improviso

  De coração feliz conquanto inquieto.


  4 No incenso a Baco já não me agonizo,

  Prossigo além, exótico e discreto,

  Mangando embora, mas com regra e siso… n


RICOS, OUVI!

  1 Aflito peregrim, que na carne conservas n

  Cofre, arca, tesouro e riquezas humanas, 16 n

  Converte em pão e luz pecúlios e reservas

  Em prol de quem padece à míngua nas choupanas.


  2 Criaturas, na Terra, existem como servas 19

  Atadas ao grilhão da posse, em feras ganas,

  No sinistro prazer das mentiras protervas,

  Aos priscos sonhos vis das ilusões vesanas.


  3 Ao homem que se esquece e jamais se vigia,

  A fortuna mais alta é cárcere e desdouro…

  Enriquece de amor a existência vazia.


  4 Destruirás, desde agora, o ergástulo vindouro

  Que encerra a alma infeliz nas raias da agonia,

  Qual soterrado vivo em mausoléu de ouro. 28


EMÍLIO DE MENEZES — Amigo de Guimarães Passos e Olavo Bilac, Emílio foi uma das figuras mais populares do Rio de Janeiro. Temido poeta satírico, o “Caçador de rimas difíceis”, no dizer de Agrippino Grieco, conquanto eleito, em 1914, somente dias antes de sua desencarnação veio a tomar posse no Petit Trianon, sem as formalidades exigidas pelo Regulamento da Academia. Salienta E. Werneck que “Emílio de Menezes gravou os seus poemas a buril: foi um dos mais extremados na perfeição artística e no lavor da forma cuidada.” (Curitiba, Paraná, 4 de Julho de 1866 — Rio de Janeiro, Gb, 6 de Junho de 1918.)

BIBLIOGRAFIA: Marcha Fúnebre; Poemas da Morte; Poesias; Últimas Rimas; etc.



[1] Observe-se a imagem que constitui, aliás, expressivo eufemismo.

[2] Neste soneto, o poeta demonstra sua preferência pelas rimas raras e cruzadas, nos quartetos, com disposição característica nos tercetos (cdc, dcd), como o fizera em “Numa Lápide” (apud Os Mais…, pág. 99), “Envelhecendo” (apud E. de M., o Últ. Boêm., pág. 181), etc. Importante também é que encontramos neste “Recado” cinco martelos, o que corresponde à estatística de M. Cavalcanti Proença (Ritmo e Poesia, págs. 87-88), que, em 840 versos do grande satírico, encontrou 307 martelos. Isto vem demonstrar que, embora mais sério, o vate ainda não se libertou do ritmo comum aos mestres da sátira.

[3] peregrim: forma antiga de peregrino.

[4] 18-19-28. Ler com hiato: “Co/fre/ ar/ca”; “cri-a-tu-ras”; “de/ ou/ro”. Cf. o 10º verso de “Envelhecendo” (apud Op. cit., pág. 181): “Prê/mio,/ qual/ de/les?/ Qual/ de/les/ é ex/pi/a/ção?”


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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