Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


22

Bulhão Pato


EPÍSTOLA DO ALÉM n

  1 Abisma-se minha alma aos impulsos da prece,

  Fitando a dor além que a muitos entristece…


  2 Pelos campos da morte onde o mal prepondera, n

  O ente humano enfermiço agita-se qual fera.


  3 A voragem hiante eletriza e arrebata

  O espírito rendido à revolta insensata.


  4 Na grande inquietação do ser que a tudo anela

  E que descobre, alfim, que a carne se esfacela,


  5 A alma forte que ria, hoje chora a sofrer

  Na vastidão do umbral que transfigura o ser.


  6 Cavernas e pauis, precipícios e furnas…

  Mausoléus de quem vive em névoas taciturnas…


  7 Neblina e fetidez… O tempo, em caos, dormita… n

  Horrendos animais em urros, choro e grita… n


  8 Cada vulto é um dragão que indignado ulula

  Preso à inveja, à vingança, à dissensão, à gula…


  9 E arrasta-se a sentir remorsos de culpado

  Em frio enregelante e em calor abafado.


  10 A populaça brame… E avança o turbilhão

  No gargalhar febril de caminho malsão!


  11 Os farrapos da vida, errantes pelo espaço,

  Pervagam sem parar, gemendo a passo e passo…


  12 Mas todos saldarão os seus mais torvos crimes,

  Sob a luz do porvir, em vitórias sublimes,


  13 Quando renascerão na carne redentora

  Guardados pela dor, nossa mestra e tutora!


  14 E o visitante, em meio aos seres padecentes,

  Rega a senda que pisa em lágrimas pungentes.


  15 Alguém pode esquecer, no imo de si mesmo, n

  Tantas almas na dor a chorarem a esmo?…


  16 Reflete, amigo, assim, que aí em teu remanso

  O pranto irado e hostil profana o luar manso…


  17 Quando em fúria te açoite a borrasca do inverno,

  Aceita a provação que é luz do Sol Eterno!


  18 Há muito companheiro entregue ao sofrimento,

  Sob materialismo ingrato e virulento.


  19 O ateu, estátua viva a morrer enganado, n

  Acalenta consigo estranho e horrível fado…


  20 O crime que passou, no qual ninguém mais pensa,

  Resta ecoando na alma, igual rude sentença…


  21 Oferece a quem chora o afago da ternura;

  Aos frêmitos de dor, a bênção doce e pura.


  22 O serviço do amor, sem láurea ou recompensa,

  Ser-te-á nova luz na luz divina e imensa. n


  23 Não olvides jamais o conceito imortal:

  Há alegria no bem e há tristeza no mal!… n


Raimundo Antônio de BULHÃO PATO — Poeta, prosador e tradutor português, Bulhão Pato pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa, tendo ido para Portugal com apenas 9 anos de idade. Afirma João Gaspar Simões que o poeta, amigo dileto de Alexandre Herculano, frequentou a roda dos maiores escritores da época. Poeta harmonioso, espontâneo e apaixonado, foi, segundo Mendes dos Remédios (Hist. Lit. Port., pág. 582), “o último representante da escola típica do Romantismo, cujos fundadores conheceu e tratou”. (Bilbau, Espanha, 3 de Março de 1829 — Torre da Caparica, Portugal, 24 de Agosto de 1912.)

BIBLIOGRAFIA: Paquita; Flores Agrestes; Livro do Monte; etc.


Nota: A fim de que possamos observar o gosto do poeta para os alexandrinos dispostos em parelhas, vamos transcrever-lhe apenas pequeno trecho de “O Pinheiro Bravo” (apud Cláudio Brandão, Antol. Contemp., págs. 423-424):

“………

Da cruel granizada, em tempos de invernia,

Muita vez me abrigou a tua ramaria!


O furacão austral não te insultava a fronte —

Em-pé; robusto e só, no píncaro do monte!”



[1] Refere-se o poeta às regiões purgatoriais da Espiritualidade.

[2] O Espírito, no Umbral, perde a noção do tempo-hora.

[3] O poeta faz alusão aos casos de zoantropia. Em grande parte, formas licantrópicas.

[4] Ler com hiato: no/ i/mo e a/ es/mo.

[5] Belíssima imagem: “o ateu, estátua viva a morrer…”

[6] Epímone: “nova luz na luz divina”. — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[7] Dupla antítese.


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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