Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


16

F. Mangabeira


ADEUSES DE SAUDADE

  1 Olhando a Terra envolta em sombra escura,

  Fico a cismar sozinho na saudade…

  Ó Galera da Vida, que procura

  O teu giro na luz da imensidade?


  2 Vejo o assomar de cenas vis e insontes n

  Do palco de mim mesmo ressurgidas.

  Nos brilhos festivais dos horizontes

  Decifram-se mistérios de outras vidas.


  3 Recordo os dias tristes e risonhos… 9 n

  No presente, o passado entra em conflito… n

  Na teia luminosa de mil sonhos,

  O meu pensar desmaia no Infinito…


  4 Doces notas ecoam delicadas… 13

  Há lira oculta além dos promontórios

  Das nuvens de outras terras, espalhadas

  Por alfombras varando espaços flóreos.


  5 Vastos campos de dores e prazeres

  Entreabrem-se ao mundo e aos corações.

  A carícia da fé embala os seres, n

  E as almas são repuxos de orações.


  6 Em toda a parte o amor vibra e esplendora…

  A vida — movimento de beleza —

  Revela o eterno bem estrada afora

  Em cada pulsação da Natureza.


  7 Quais belos focos vivos de esperança,

  Almas libertas tomam novo alento.

  Do Amor Sem Fim derrama-se a bonança…

  Em tudo há melodia e encantamento…


  8 Terra! Galera ao sol, luta e porfia!

  Guarda contigo a Grande Humanidade!

  Homens! Cantai a festa da alegria,

  Enquanto choro adeuses de saudade!…


FRANCISCO Cavalcanti MANGABEIRA — Médico, jornalista e poeta. Viveu uma existência agitada e heroica. À maneira de Luís Delfino, soube associar a Medicina à Poesia, até que a morte o colheu, em viagem, depois de servir na libertação do Acre, vítima de terrível polinevrite palustre. Agrippino Grieco coloca-o entre os poetas do “nosso segundo parnasianismo”. Nélson Werneck Sodré, por outro lado, situa-o entre os poetas menores do romantismo. Tem a poesia de Francisco Mangabeira, segundo Américo de Oliveira, “eloquentíssimo êxtases passionais, e todos os sentimentos assumiram elevações verdadeiramente inéditas” (apud A. Diniz, Francisco Mangabeira, pág. 207). Patrono, na Academia de Letras da Bahia, da cadeira n° 70. (Salvador, Bahia, 8 de Fevereiro de 1879 — A bordo do paquete S. Salvador, na altura de Gapuri, entre Belém e S. Luís, 27 de Janeiro de 1904.)

BIBLIOGRAFIA: Hostiário; Tragédia Épica, poema; Últimas poesias; além de inéditos.



[1] Entenda-se: “Vejo o assomar de cenas vis e insontes / ressurgidas do palco de mim mesmo.”

[2] 9-13. Ler com sinérese: di/as e e/co/am. Atente-se, ainda, no hipérbato: “Doces notas ecoam delicadas…”

[3] Antítese.

[4] Leia-se com hiato: fé/ em/ba/la.


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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