Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


9

João de Deus


EXORTAÇÃO

  1 Trabalho — nossa coroa,

  Consciência — nosso altar,

  Na Terra que voa, voa,

  Sem pousar.


  2 O presente — panorama

  Do Grande e Excelso Porvir;

  Segue a Jesus, ama, ama,

  Sem pedir.


  3 Eis o Evangelho — cartilha

  Do nosso curso escolar.

  Farol de amor, brilha, brilha,

  Sem cessar.


  4 Abismo, lameiro e aclive

  São convites ao dever.

  Quem não luta vive, vive,

  Sem viver…


  5 Alma — luz que nunca morre.

  Ninguém se pode matar.

  Vida é fonte: corre, corre,

  Sem parar.


  6 Quando o coração é cofre

  De esperança e bem-querer,

  O Espírito sofre, sofre,

  Sem sofrer…


  7 O cristão marcha em demanda

  Da glória do Eterno Lar.

  Serve, ajuda, anda, anda, 27 n

  Sem cansar.


  8 Ao Mestre da Vida aprouve

  Rogar-nos a discernir,

  O ouvido que ouve, ouve, 31

  Sem ouvir…


  9 Desterra a intenção escusa

  Com os bens da vida vulgar, 34 n

  Doa a todos, usa, usa, 35

  Sem guardar.


  10 Deus por Divina Tutela

  É sol no próprio nadir.

  Caminheiro, vela, vela,

  Sem dormir!… n


CÂNTICO FRATERNO

  1 Canta, irmão, canta o carinho!

  Canta o rio em todo canto n

  Fazendo o próprio caminho

  Belo e santo.


  2 Dura o bem, dura a alegria,

  Dura o amor e a paz perdura. n

  Somente o mal desce à via

  Da loucura.


  3 Vibra, irmão, vibra em Jesus!

  Vibra o Sol, em raios vibra, n

  E o dossel de sua luz

  Equilibra.


  4 Chora a vida rumo à frente.

  A evolução chora, chora, n

  Pois o pranto é lava ardente

  Que aprimora.


  5 Sente, irmão, sente o perfume, n

  A brisa chegando à porta;

  Seu passo que aviva o lume

  Reconforta.


  6 — Onde há paz? Onde há bondade?

  Onde há amor e há riso aonde? n

  — Onde?! Em ti! És a verdade

  Que se esconde… n


TRÊS ESTRELAS

  1 Três estrelas que o céu guarda e emoldura,

  Descem, descem, velozes pelo espaço, n

  Seguem reunidas por divino laço,

  Buscando a Terra além, magoada e escura…


  2 Pousam, enfim, na gleba áspera e dura,

  Luzes varando o serro triste e baço,

  E avançam, refletindo, traço a traço,

  A projeção de sol da imensa altura…


  3 A quem vão socorrer na senda humana?

  Sob a pálida luz da lua cheia, n

  Para onde marcha a excelsa caravana?


  4 Descem, agora, as três, aquém do monte,

  E abraçam pobre mãe que ora e pranteia,

  Em gelado desvão de velha ponte… n


JOÃO DE DEUS Ramos — De origem humilde, João de Deus bacharelou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, em 1859, exercendo brilhantemente o jornalismo e o magistério, sendo considerado um verdadeiro apóstolo da instrução. “É um lírico inimitável” — dele diz Mendes dos Remédios (História Lit. Port., pág. 586) — “e o mais espontâneo e genial burilador da poesia portuguesa. Nunca ninguém teve a arte de dizer coisas mais belas em frases tão simples.” (S. Bartolomeu de Messines, Algarve, Portugal, 8 de Março de 1830 — Lisboa, 11 de Janeiro de 1896.)

BIBLIOGRAFIA: a) do homem terreno: Flores do Campo; Ramo de Flores; Folhas Soltas; Cartilha Maternal, etc.; b) do poeta desencarnado: Jardim da Infância, pelo médium Francisco Cândido Xavier.


Nota ao poema Exortação: Num esquema estrófico peculiar ao poeta, observe-se o magnífico efeito do ricochete no terceiro verso de cada estância, com o quebrado ao fim de cada pensamento expresso, como numa das estrofes de “A Vida” (apud M. dos Remédios, Op. cit., pág. 675), que vamos transcrever:


“Que é desses cabelos de oiro

Do mais subido quilate,

Desses lábios de escarlate,

Meu tesoiro!”



[1] 27-31-35. Ler com hiato: “Ser/ve, a/ju/da,/ an/da,/an/da”; “O ou/vi/do/ que/ ou/ve,/ ou/ve”; “Do/a a/ to/dos,/ u/sa,/u/sa”.

[2] Leia-se numa silaba: Com os (Ectlipse).

[3] Anáfora: “Canta…/Canta…”.

[4] Cf. nota anterior. Observe-se, ainda, a beleza desse verso leonino.

[5] Além da anáfora, note-se a epanalepse: “Vibra o Sol, em raios vibra”.

[6] Além da epanadiplose, observe-se o ricochete. — Epanadiplose: “Nome dado à FIGURA que resulta quando se repete a mesma palavra ou frase no começo de um VERSO e no fim do seguinte, …” (Geir Campos Op. cit.) Ricochete: “Espécie de ECO repetindo a mesma palavra, …” (Idem, Ibidem.)

[7]Sente, irmão, sente o perfume,”: Mesarquia — Cf. 2ª nota do cap. 7 da 1ª Parte.

[8] Onde-aonde. No Roteiro Literário do Brasil e de Portugal, vol. I, pág. 48, nota 5, lê-se: “onde: aonde. Nos melhores autores, antigos ou modernos, não se observa, em geral, a distinção entre onde e aonde que os gramáticos acham ser de rigor.”

[9] Atente-se na beleza da repetição intencional dos verbos, nos dois versos iniciais de cada estrofe, em que várias figuras se sucedem harmonicamente, como, por exemplo, epanadiplose na 3ª e 4ª estrofes, epanalepse, no 2º verso da 3ª estância. Além disso, observe-se a plasticidade dos versos quebrados que, sobre encantar pelo boleio do ritmo, instruem pela essência doutrinária que o poeta consegue imprimir com rara felicidade.

[10] A repetição enfática de descer, constituindo belíssima epizeuxe dá ideia da velocidade com que as três estrelas varam o espaço, buscando a Terra, além…

[11] Aliteração em l.

[12] Sempre preso àqueles assuntos de simplicidade que caracterizaram sua poética, JD, neste soneto, revela-se continuar sendo sempre o João de Deus do Campo de Flores, suave, terno, imensamente poeta.


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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