Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


5

Tobias Barreto


DEUS E A HUMANIDADE

  1 — Pára! — repete a voz. — Espera! Aguça o ouvido!… —

  O homem prossegue, entanto, a passo turbulento…

  — Pára! Não sigas mais! Ouve! Sê comedido!… —

  Ele teima, rebelde, e vara a sombra e o vento…


  2 — Pára! Detém-te, agora! Escuta, precavido!… —

  Desce a noite profunda e invade o firmamento…

  — Pára! Que já retumba o funesto alarido!… —

  E rosna o temporal pelo bulcão violento… n


  3 — Pára! Atende, afinal! Busca a bênção da prece!… — n

  Mas o surdo viajor ri-se e desobedece,

  Satiriza, gargalha e afronta o céu vulcâneo…


  4 Como quem foge à voz do socorro divino,

  Avança para a dor do seu próprio destino…

  E mais além um raio espedaça-lhe o crânio… n


ARMA ONIPOTENTE

  1 Ei-la a estrugir na ideia!… Alçada com lisura,

  Reflete os dons de Deus, ergue, educa e domina!… n

  Tesoura, corta os véus literais da Escritura!

  Cinzel, grava os anais da Justiça Divina!


  2 Aguilhão, tece o fio imortal da cultura!

  Lança, retalha o corpo estranho da rotina! n

  Clava, reduz o grés do mal a cinza escura!

  Broca, rompe os grilhões da expiação ferina!


  3 Pincel, tinge os painéis ridentes da bondade!

  Chave, fende os portais ocultos da Verdade!

  Palheta, fere, em lira augusta a paz serena!


  4 Homem, caminha além! Pompeia, em verso e prosa,

  O altívolo espadim da expressão luminosa

  A brilhar-te nas mãos sob a forma de pena!…


TOBIAS BARRETO de Menezes — Chefe da chamada “Escola do Recife”, o poeta condoreiro de Dias e Noites deixou uma obra vasta e imponente. Para Exupero Monteiro, da Academia Sergipana de Letras, “Tobias foi um poeta de grandezas e ternuras”, salientando que “a dúvida religiosa foi uma das constantes da sua amargurada existência” (T. Barreto, pág. 30). Cultura polimórfica e profunda, escreveu sobre Filosofia, Direito, Literatura, Música, “abrindo novos caminhos à vida espiritual do País”, no dizer de Edgard Cavalheiro. Figura de destaque na Faculdade de Direito do Recife. Lente da Universidade Livre, de Francfort, em 1881. Patrono da cadeira n° 38, na Academia Brasileira de Letras, pertenceu, ainda, ao Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano. Esforçado paladino da imprensa, colaborou em vários periódicos do Recife, tendo fundado e redigido muitos outros. Orador, crítico, polemista e perfeito conhecedor de meia dúzia de línguas, Armindo Guaraná considerou-o “o maior dos sergipanos pelo talento e pela erudição”. (Campos, atual Tobias Barreto, Est. de Sergipe, 7 de Junho de 1839 — Recife, Est. de Pernambuco, 26 de Junho de 1889.)

BIBLIOGRAFIA: Dias e Noites; Estudos Alemães; Discursos; etc.



[1] Feliz emprego do verbo rosnar, depois de retumbar o funesto alarido.

[2] Anáfora: “Pára!” — no começo de 5 versos.

[3] Excelente estudo do livre arbítrio humano e do determinismo das Leia Divinas, realçado pela conhecida tendência filosófica do Autor.

[4] Note-se o clímax : “ergue, educa, domina!…”

[5] Das numerosas imagens que se desdobram do primeiro ao último verso, esta, sem dúvida, é realmente magnífica: “Lança, retalha o corpo estranho da rotina!”


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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