Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Antologia dos Imortais — Autores diversos — 2ª Parte


4

Félix de Bulhões


PAINEL DO UMBRAL

  1 Minha alma ardendo em febre ante o espaço sombrio,

  Sob espessa ilusão tornara-se idiota.

  Qual duende do horror, contornando o vazio,

  Ia e vinha a penar sem luz, sem paz, sem rota… n


  2 O ponteiro do tempo errava em desvario…

  E eis que horrendo tremor lambe a terra ignota… n

  Na tortura do assombro, agoniado, espio

  A tormenta abismal na vastidão remota…


  3 Fogaréu a verter de sinistras montanhas…

  O fumo a espiralar mil sensações estranhas…

  Lagos de lodo e fel em lava incandescente… n


  Agora, mais feliz, sem que o verbo me exprima,

  Sei que do Umbral de angústia aos Páramos de Cima, n

  Ninguém padece, dorme ou sonha eternamente!… n


CARMA

  1 … E estou preso à memória — horrendo pelourinho… 15 n

  É o passado a bramir… Emoções e lugares…

  Ódio, aflição, amor… Insano torvelinho…

  Casam-se riso e pranto em sonhos e avatares.


  2 O tempo — velho tempo —, o lúgubre adivinho, 19

  Revolve-me no ser as ânsias e os pesares…

  Acusa-me feroz e fere-me, escarninho,

  Atando-me aos grilhões de angústias invulgares.


  3 Se guardo além da morte a máscara serena,

  Trago no coração a dor que me condena,

  Ante a sombra que fui, tangendo a vida a esmo. n


  4 A consciência exuma as transgressões remotas

  E o clarim do dever repete em largas notas:

  — Ninguém foge do mal que plantou por si mesmo.


Antônio FÉLIX DE BULHÕES Jardim — Tendo concluído, com 20 anos, o curso de Direito na Faculdade do Estado de S. Paulo, Félix de Bulhões ocupou diversos cargos na magistratura goiana, chegando a desembargador. Poeta, jornalista e político, fundou várias publicações, dentre outras, Goiaz, Província de Goiaz e Tribuna Livre, onde expunha as ideias de liberal e autêntico antiescravagista. “Muitas vezes” — di-lo o Dr. Jerônimo de Morais, Discurso…, pág. 7 — “os seus períodos eram cortantes como o bisturi dos cirurgiões, quando esvurmava as chagas sociais, ou se convertiam em látegos cruéis com que fustigava os adversários desleais…” (Goiás, 28 de Agosto de 1845 — Goiás, Est. de Goiás, 29 de Março de 1887.)

BIBLIOGRAFIA: Poesias.



[1] Epímone — Cf. 1ª nota do cap. 3 da 1ª Parte.

[2] Suarabácti : “i-g-no-ta”. Cf. nota 1, do cap. 10 da 1ª Parte.

[3] Aliteração em l.

[4] Antítese: Umbral — Páramos de Cima.

[5] Descrição magistral das paisagens umbralinas, que, segundo as instruções de Amigos Espirituais, começam na crosta terrena.

[6] 15-19. Excelentes imagens: memória, horrendo pelourinho e o tempo, lúgubre adivinho. Cf. o soneto “A Vida Humana” (apud Veiga Netto, Antologia Goiana, pág. 179), 1º verso: “…é um mar que embala e que espedaça…”

[7] Ler com hiato: vi/da a/ es/mo.


(Psicografia de Waldo Vieira)


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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