Bíblia do Caminho Testamento Xavieriano

Alma e Vida — Maria Dolores


10

Sonho e vida

   1 Aquele solo agreste era o lugar remoto

  Onde vivia a sós o anônimo devoto.


   2 Jovem ainda, ele presenciara

  A cena que jamais olvidaria:

  O pai apunhalado em agonia

  Ante o vizinho que o aniquilara

  Por mínima questão

  De terra, muro, água e plantação…

   3 Depois disso, afirmou no vilarejo

  Que todo o seu desejo

  Era buscar Jesus, sem sombras, sem perigos

  E consagrar-se ao Mestre, inteiramente.

   4 Não lhe valeram rogos de carinho

  Da família que o viu mudado, de repente,

  Declarava querer o seu próprio caminho

  E partir com destino ignorado…

   5 Avançou e avançou por regiões distantes,

  Até que se instalou num bosque descampado

  Que pagou a dinheiro de contado…


   6 A não ser velho servo surdo e mudo

  Que lhe servia a mesa

  E lhe prestava auxílio em quase tudo,

  Ninguém mais o avistara, ninguém mais.

   7 Vivia em prece pelos matagais

  E através do silêncio

  Na paisagem formada em verdura e beleza,

   8 Dava-se, vez em vez, à Natureza,

  Plantando flores, quanto às quais dizia

  Serem todas ofertadas ao Senhor,

  A quem se devotara pleno de alegria

  E profundo fervor.


   9 Nas orações de cada dia, após entretecê-las,

  Fitava o céu da noite, esmaltado de estrelas

  E falava, em voz alta, implorando a Jesus:

   10 — “Revela-me, Senhor,

  Seja onde for e seja com quem for,

  A tarefa que eu deva realizar!…

   11 Tudo quanto desejo é te honorificar,

  Em mim, tua vontade é um santo compromisso,

  Dá-me teu plano, engaja-me em serviço!…”


   12 O Tempo desfolhou vinte nove janeiros.

  O devoto, porém, vivendo solitário,

  Nunca mais consultou o calendário.

   13 dia a dia, o silêncio, a quietude e a oração

  Em que pedia aos Céus qualquer indicação

  Do trabalho a fazer;

  Que aceitaria, enfim, por sagrado dever…


   14 Certa noite, no entanto, ele se viu em sonho

  Encantado e risonho,

  Numa ilha de paz, no mar do firmamento;

   15 Espantado, ele viu, piedoso e atento,

  Que Jesus vinha vê-lo…

  Ergue-se para ouvi-lo em recatado zelo

   16 E eis que o Mestre lhe diz confiante e amigo:

  — “Filho, regressa ao lar, terás hoje contigo

  O encargo que pediste em oração…

   17 Um companheiro, em vasta provação,

  Virá pedir-te amparo e socorro em meu nome;

   18 É um pobre delinquente

  Que tem pago no mundo, asperamente,

  Os erros dos momentos de loucura.

   19 Já sofreu menosprezo, abandono, assalto, desventura…

  Hoje, é mendigo, um réprobo que erra

  Nas veredas de lágrimas da Terra,

  Sem meios de vencer a luta que o consome;

   20 Dá-lhe de teu amor, na bênção de teu pão,

  Ele te rogará consolo ao coração;

   21 Mesmo em havendo empeço, ajuda-o mesmo assim,

  Faze isso, meu filho, em memória de mim…”

   22 Reconhecendo em Cristo a presença da Lei,

  O devoto, extasiado e reverente,

  Respondeu, claramente:

  — “Obrigado, Senhor!… Assim farei…”


   23 Nisso, ele volta ao corpo…

  Enlevado, desperta.

  Manhã clara. Ouve alguém, batendo à porta,

  Num choro que o agita e desconforta

  Na morada deserta…

   24 Recordando a visão do sonho iluminado,

  Ergue-se, estremunhado,

  Lembra Jesus com desvelado amor

  E pergunta a si mesmo

  Quem o procuraria

  No amanhecer daquele dia,

  Com tanta gritaria e tanta dor…


   25 Atônito, ele sai

  E encontra no infeliz, sem rumo e sem caminho,

  O antigo desafeto, o impiedoso vizinho

  Que lhe amargara a vida e lhe arrasara o pai.


.Maria Dolores


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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