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Revista espírita — Ano XII — Dezembro de 1869

(Édition Française)

 BIBLIOGRAFIA


Contemplações científicas

(Por C. Flammarion – 1 vol. in-12. Preço: 3 fr. 50.) n

Sob esse título, a Livraria Hachette publicará uma nova obra do jovem e eminente autor da A pluralidade dos mundos habitados, de Deus na Natureza, das Maravilhas celestes, etc. etc.

As Contemplações Científicas, como indica o seu título, aliam à rigorosa argumentação do sábio, a profundeza de concepção e elevação do pensamento do filósofo espiritualista. Perlustrando essas páginas eloquentes e poéticas os espíritas encontrarão muito material para colher.

Depois de ter afirmado e demonstrado a pluralidade e a solidariedades dos mundos habitados, o Sr. C. Flammarion, na primeira parte de sua nova obra, dá-nos a conhecer os nossos inferiores na Terra, desde o infinitamente pequeno, visível apenas ao microscópio, desde a planta rudimentar e o inseto, até os animais superiores que precedem imediatamente o homem na escala da criação. A segunda parte do livro é consagrada à aplicação industrial das descobertas científicas modernas. Premidos pelo espaço, não o acompanharemos nesta ordem de ideias; mas não podemos resistir ao desejo de dar a conhecer a sua opinião sobre a questão, na ordem do dia, do progresso infinito de tudo o que existe e do futuro da animalidade.

O Sr. Flammarion teve a gentileza de nos entregar algumas provas desta nova e interessante publicação e estamos certos de que os nossos leitores ficarão satisfeitos em lhes assinalar as seguintes passagens:


O MUNDO DAS PLANTAS


“A vida não é representada na Terra apenas pelos seres animados que marcham na superfície do globo, voam nos ares ou nadam nas profundezas do oceano. Compondo um mesmo conjunto, os animais formam os degraus da pirâmide sobre a qual se assenta o homem, esse compêndio superior da série zoológica; estão ligados entre si pelos mesmos caracteres: o movimento, a respiração, a alimentação, os atos da vida animal, o instinto e mesmo o pensamento para um grande número deles. Estão ligados ao homem pelas leis gerais da organização e sentimos que pertencem ao mesmo sistema de existência ao qual pertencemos. Mas há na Terra uma outra vida, bem diferente da precedente, embora seja a sua base primitiva e o elemento fundamental, uma outra vida distinta da nossa, que se perpetua paralelamente à vida animal e parece confinar-se numa espécie de isolamento em meio ao resto do mundo. É a vida das plantas, desses seres misteriosos que nos precederam na criação e que, por muito tempo, reinaram soberanamente nos continentes sobre os quais estabelecemos mais tarde o nosso império; verdadeiras raízes de nossa própria existência, pelas quais sugamos a seiva nutritiva da terra; fontes de vida incessantemente renovadas que se irradiam na Natureza; criações que constituem um reino intermediário entre o mineral e o animal, e cujo valor e real beleza não sabemos apreciar…

“…É que existe nessa lei que preside à vida, à morte, à ressurreição das plantas um caráter de grandeza, de previdência e de afeição, que o pensamento humano pressente sem poder captá-lo; é que há nesses seres misteriosos que se chamam plantas um gênero de vida latente e oculto que espanta e enche de estranha surpresa o espírito observador…

“As plantas, os animais, diz um poeta alemão, são os sonhos da Natureza, dos quais o homem é o despertar. Esse pensamento profundo repercutirá em nossa alma se consentirmos em descer um instante da vida humana, e mesmo da vida animal, para observar a vida vegetal…

“…E não creiais que ela sofra cegamente, como um objeto inerte, as condições de existência que lhe são impostas. Não: ela escolhe, recusa, procura, trabalha…

“…Escutai, por exemplo, esta história:

“Sobre as ruínas de New-Abbey, W no condado de Galloway, W crescia um arbusto em meio a um velho muro. Ali, longe do solo acima do qual se elevava de alguns pés o bloco de pedras, nosso pobre arbusto morria de fome, fome de Tântalo, W já que ao pé do próprio muro árido se estendia a boa e nutritiva terra.

“Que dizer dos surdos tremores do ser vegetal que luta contra a morte, suas torturas silenciosas e seus mudos langores galvanizados pela cobiça? Quem saberá contar aqui em particular o que se passa no organismo do nosso pobre mártir? Que atrações se estabelecerão, que faculdades se aguçarão, que imperiosas leis se revelarão, que virtudes enfim foram criadas?… O nosso arbusto existe sempre, enérgico e aventureiro se o foi, querendo viver a todo custo e, não podendo atrair a terra, marcha, imóvel, acorrentado, para esta terra longínqua, objeto de seus ardentes desejos.

“Marcha? não; mas se estira, se alonga, estende um braço desesperado. Emite uma raiz improvisada pela circunstância, que é impelida para o ar livre e, reconhecida, se dirige para o solo até atingi-lo… Com que entusiasmo aí se enterra! Doravante a árvore estava salva. Nutrida por esta raiz nova, deslocou-se de um lugar para outro, deixando que morresse as que mergulhavam inutilmente nos escombros; depois, endireitando-se pouco a pouco, deixou as pedras do velho muro e viveu sobre o órgão libertador, que logo se transformou num tronco verdadeiro.

“Que pensais dessa persistência? Não achais que esse instinto se parece muito com o do animal e, ousamos confessar, mesmo com a vontade humana?…

“Sob essas manifestações de uma vida desconhecida, o filósofo pode abster-se de reconhecer no mundo das plantas um canto do coro universal. É um mundo de uma realidade viva, mais comovente do que se pensa, esse reino vegetal, harmônico, doce e sonhador que, nos degraus inferiores à animalidade, parece sonhar enquanto aguarda a perfeição entrevista. Sem dúvida não se deve cair no excesso de uma escola da antiguidade que, sob autoridade de Empédocles, não hesitando em conceder às plantas faculdades de escol, as havia humanizado e mesmo divinizado. Não; as plantas não são animais, nem homens: uma distância imensa as separa de nós; mas vivem uma existência que não sabemos apreciar e ficaríamos bem admirados se nos fosse permitido entrar um instante nos segredos do mundo vegetal e escutar o que podem dizer em sua língua as pequenas flores e as grandes árvores.”


INTELIGÊNCIA DOS ANIMAIS


“Graus inferiores da série zoológica, dos quais acabamos de ter um aspecto particular em nosso precedente estudo sobre a vida dos insetos, elevam-nos mais e nos põem agora em relação com as manifestações mais altas da vida terrestre.

“A Natureza inteira é construída sobre o mesmo plano e manifesta a expressão permanente da mesma ideia. A grande lei de unidade e de continuidade se revela não só na forma plástica dos seres, mas ainda na força que os anima, desde o humilde vegetal até o homem mais eminente. Na planta, uma força orgânica agrupa as células conforme o modo de cada espécie, aproximando-se para o tipo ideal do reino. O cedro das montanhas do Líbano, o salgueiro da margem dos rios, as árvores das florestas cerradas e as flores de nossos jardins sonham, adormecidas nos limbos indecisos da vida. Num certo número delas, constata-se movimentos espontâneos e expressões que parecem revelar o aparecimento de algum rudimento de sistema nervoso. Os degraus inferiores do reino animal, que habitam as móveis regiões do oceano – os zoófitos -parecem pertencer, sob certos aspectos, ao mundo das plantas. À medida que se eleva na escala da vida, o espírito afirma pouco a pouco uma personalidade mais bem determinada; atinge seu mais elevado desenvolvimento no homem, último elo da imensa corrente sobre a Terra.

“Esta contemplação da vida na Natureza abarca, sob uma mesma concepção, o conjunto dos seres e nos põe em relação com a unidade viva manifestada sob as formas terrestres e siderais. Inspirada e afirmada pelas fecundas descobertas da ciência contemporânea, ela ultrapassa majestosamente as ideias de uma outra idade, que retalhavam a criação e não deixavam subsistir senão o homem no trono da inteligência. Hoje sabemos que o homem não está isolado no Universo, nem na Terra; está ligado aos outros mundos pelos liames da vida universal e eterna, e à população terrena, pelos laços da organização comum dos habitantes do nosso planeta. Não há mais um abismo intransponível entre o homem e Júpiter, nem entre o homem branco e o homem negro, nem entre o homem e o macaco, o cão ou a planta. Todos os seres são filhos da mesma lei e todos tendem para o mesmo objetivo, a perfeição.

“A reação teológica do século dezessete havia separado rigorosamente o homem de seus irmãos mais velhos na obra inexplicada da criação. Descartes representou os animais como simples máquinas vivas. Grandes discussões se levantaram sobre a questão da alma dos animais, e de tempos em tempos encontramos as variadas peças deste imenso arrazoado. Dos numerosos tratados sobre esse assunto, escritos naquela época, citaremos sobretudo o do padre Daniel, n discípulo de Descartes, que completa sua viagem à Lua, e o do padre Boujeaut, n que toma o partido dos animais… e mesmo encontrando tanto espírito que acaba por nelas ver a encarnação dos mais astutos diabos…

“Os animais são dotados da faculdade de pensar; neles reside uma alma, diferente da nossa (e talvez tão diferente que nenhuma comparação possa ser estabelecida). A faculdade de pensar se revela em graus diversos conforme as espécies, e aí está a grande dificuldade do assunto! Porque, concedendo uma alma ao cão, aos poucos somos levados a concedê-la à ostra; e se a ostra é animada por uma mônada espiritual, mesmo adotando a classificação de Leibnitz, não vemos por que a sensitiva e a rosa dela fossem privadas. Eis, assim, uma série de almas imortais em números incalculáveis, com as quais nos embaraçaríamos muito se fôssemos obrigados a dirigir as suas metempsicoses. Felizmente, o misterioso autor da Natureza, ao nos deixar a faculdade de sonhar e de conjecturar, tirou-nos desta dificuldade.

“Este estudo não teria fim se não apresentássemos aqui todos os materiais que temos à mão em favor da alma dos animais superiores. Não podemos senão relegar esses fatos tão numerosos às notas complementares por nós reportadas. Pela amizade e pelo ódio, pelo apego que as diferentes espécies animais estabelecem entre si, somos autorizados a admitir nos animais, faculdades intelectuais análogas às nossas. Esta questão comporta um dos mais curiosos e mais graves problemas da filosofia natural.

“Concluindo, declaramos que Buffon se enganou por não ter ousado dizer, depois de expor as ações racionais do pungo: “e, contudo, o pungo não pensa”, e que o grande Leibnitz se equivocava quando afirmava “que o mais estúpido dos homens é incomparavelmente mais racional e mais dócil que o mais espirituoso dos animais.” O certo é que há no mundo homens grosseiros, brutos, mais maus e menos inteligentes do que certos animais de boa natureza.”


C. Flammarion



[1] [Contemplations scientifiques - Google Books]


[2] [Amusement philosophique sur le langage des bêtes. Par Guillaume-Hyacinthe Bougeant - Google Books]


[3] [Voiage Du Monde De Descartes. Par Gabriel Daniel - Google Books]


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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