Bíblia do Caminho Testamento Kardequiano

Revista espírita — Ano III — Abril de 1860

(Édition Française)

VARIEDADES


O fabricante de São Petersburgo

O seguinte fato de manifestação espontânea foi transmitido ao nosso colega, Sr. Kratzoff, de São Petersburgo,  †  por seu compatriota, o barão Gabriel Tscherkassoff, que reside em Cannes (Var)  †  e garante a sua autenticidade. Aliás, parece que o fato é muito conhecido e fez sensação na época em que ocorreu.

“No começo do século havia em São Petersburgo um rico artesão, que empregava grande número de operários em suas oficinas. Seu nome me escapa, mas creio que era inglês. Homem probo, humano e comportado, não só desfrutava a boa renda de seus produtos, mas, muito mais ainda, do bem-estar físico e moral de seus operários que, consequentemente, ofereciam o exemplo de boa conduta e de uma concórdia quase fraternal. Conforme um costume observado na Rússia até hoje, o patrão custeava o alojamento e a alimentação, ocupando os operários os andares superiores e as águas-furtadas da mesma casa que ele. Certa manhã, ao despertar, vários operários não encontraram suas roupas, que haviam posto de lado ao se deitarem. Não se podia pensar em roubo: Conjeturaram inutilmente e suspeitaram que os mais maliciosos tinham querido pregar uma peça em seus camaradas. Enfim, graças às buscas realizadas, encontraram todos os objetos desaparecidos, no celeiro; nas chaminés e até nos telhados. O patrão fez advertências gerais, já que ninguém se confessava culpado; ao contrário, todos protestavam inocência.

“Passado algum tempo, o mesmo fato se repetiu; novas advertências, novos protestos. Pouco a pouco o fenômeno começou a se repetir todas as noites e o patrão inquietou-se bastante, porque além de seu trabalho ser muito prejudicado, via-se ameaçado pela debandada de todos os operários, que temiam permanecer numa casa onde se passavam, segundo eles, coisas sobrenaturais. Seguindo o conselho do patrão, foi organizado um serviço noturno, escolhido pelos próprios operários, para surpreender o culpado. Mas nada conseguiram: ao contrário, as coisas pioravam cada vez mais. Para alcançar seus quartos, os operários deviam subir escadas que não estavam iluminadas. Ora, aconteceu a vários deles receber pancadas e bofetões e, quando procuravam defender-se, não batiam senão no vazio, enquanto a violência dos golpes os fazia supor que tratavam com um ser sólido. Desta vez o patrão os aconselhou a se dividirem em dois grupos: um deveria ficar na parte superior da escada, e o outro embaixo. Desta maneira o brincalhão de mau gosto não poderia escapar e receber o corretivo que merecia. Mas a previdência do patrão falhou novamente; os dois grupos apanharam bastante e cada um acusava o outro. As recriminações tornaram-se atrozes e a desinteligência entre os operários chegou ao cúmulo, de modo que o pobre patrão já pensava em fechar as oficinas ou mudar-se.

“Uma noite estava sentado, triste e pensativo, cercado pela família. Todos estavam abatidos quando, de repente, ouviu-se um grande ruído no aposento ao lado, que lhe servia de gabinete de trabalho. Levantou-se precipitadamente e foi procurar a causa do barulho. Ao abrir a porta, a primeira coisa que viu foi sua escrivaninha aberta e um castiçal aceso. Ora, há poucos instantes ele havia fechado a escrivaninha e apagado a luz. Ao aproximar-se, distinguiu sobre a mesa um tinteiro de vidro e uma pena que não lhe pertenciam, além de uma folha de papel sobre a qual estavam escritas estas palavras, que não tinham tido tempo de secar: “Manda demolir a parede em tal lugar (era acima da escada); aí encontrarás ossadas humanas, que mandarás sepultar em terra santa”. O patrão tomou o papel e correu a informar a polícia.

“No dia seguinte começaram a procurar de onde provinham o tinteiro e a pena. Mostrando-os aos moradores da mesma casa, chegaram até um negociante de gêneros alimentícios que tinha a sua quitanda no rés-do-chão e que reconheceu um e outra como seus. Interrogado sobre a pessoa a quem os havia dado, respondeu: Ontem à noite, já tendo fechado a porta da loja, ouvi uma leve batida no postigo da janela; abri e um homem, cujos traços não me foi possível distinguir, disse-me: Peço-te que me dês um tinteiro e uma pena; eu tos pagarei. Tendo-lhe passado os dois objetos, ele me atirou uma grande moeda de cobre, que ouvi cair no assoalho, mas não pude encontrar.

“Demoliram a parede no lugar indicado e aí encontraram ossadas humanas, que foram enterradas, voltando tudo ao normal. Jamais se soube a quem pertenciam aqueles ossos.”

Fatos desta natureza devem ter ocorrido em todas as épocas e vê-se que não são provocados absolutamente pelos conhecimentos espíritas. Compreende-se que, em séculos recuados, ou entre povos ignorantes, tenham dado lugar a todo tipo de conjecturas supersticiosas.


Citação parcial para estudo, de acordo com o artigo 46, item III, da Lei de Direitos Autorais.

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